Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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A terapia assistida por animais - o papel do Médico Veterinário.
Boletim Informativo - Nº35 - 2004
PROFA. ASS. DRA. VALÉRIA NOBRE L. S. OLIVA
M.V. COORDENADORA DO PROJETO CÃOCIDADÃO- UNESP
UNESP- CAMPUS DE ARAÇATUBA – CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA

A Terapia Assistida por Animais (TAA), também chamada Pet Therapy ou Zooterapia é, comprovadamente, uma técnica útil na socialização de pessoas, na psicoterapia, em tratamentos de pacientes com necessidades especiais, na diminuição da ansiedade de várias causas e no auxílio terapêutico de pacientes com doenças graves tais como o câncer, o mal de Alzheimer e nos estados de coma. Muitas espécies animais podem ser utilizadas para este fim e, entre elas, a eqüina e a canina ocupam papel de destaque. Com os primeiros, a chamada hipoterapia ou equoterapia é amplamente difundida em nosso país para o tratamento de pacientes com limitações físicas e mentais. Por outro lado, os cães têm sido utilizados em projetos de educação, psicoterapia e/ou fisioterapia em pacientes idosos, adultos ou crianças, nas mais diversas situações físicas e psicológicas, com resultados bastante positivos.


FIGURA 1: CADELA “MONALISA” INTERAGINDO COM PACIENTE COM PARALISIA CEREBRAL.

A terapia facilitada por animais se originou na Inglaterra, em 1792, onde foi aplicada em uma instituição de tratamento de doentes mentais. Contudo, considera- se o Dr. Boris Levinson como o introdutor do uso da terapia facilitada por cão – TFC, cinoterapia – com crianças, quando observou a melhor integração da uma criança socialmente reservada ao ser deixada acidentalmente em contato com o seu próprio cão, Jingles.

Os campos de aplicação da pet therapy são muito vastos e vão desde a terapia de reabilitação de pacientes com distúrbios físicos ou comportamentais, à prevenção de estados depressivos e de enfermidades cardiovasculares, assim como com a simples finalidade de formação e educação de crianças em idade evolutiva.

Qualquer relação entre seres humanos, mesmo familiar e amigável, impõe um confronto e, em neste sentido, sempre gera de uma parte algum nível de estresse, ainda que mínimo. A relação homem-animal oferece a vantagem de ser isenta de confrontos, não competitiva, não verbal e, assim, totalmente isenta de mensagens contraditórias. Apresenta-se ainda como uma vivência relaxante e conciliadora. (CHIEPPA, 2002 ).

O uso do animal como co-terapeuta deve ser organizado por grupos multidisciplinares envolvendo profissionais ligados à saúde humana (psicólogos, terapeutas, fonoaudiólogos, médicos, cirurgiões-dentistas, fisioterapeutas) e profissionais especialistas em comportamento e saúde animal. Neste segundo contexto, o Médico Veterinário desempenha papel essencial no sentido de acompanhar as manifestações comportamentais do animal junto a adestradores e etólogos, assim como, no sentido de zelar pela saúde animal.

A plena saúde física do animal coterapeuta é um aspecto essencial e visa, não somente o bom desempenho e o bem-estar do animal, mas também a garantia de que não haverá risco de transmissão de zoonoses e contaminação dos locais de realização das terapias. Não se pode esquecer que muitos destes ambientes são sanitariamente controlados, tais como hospitais e consultórios e, além disto, podese entrar em contato com pacientes enfraquecidos e até imunossuprimidos por tratamentos químicos ou pela própria doença que enfrentam.

Desta maneira, torna-se obrigatório o acompanhamento rigoroso do estado de saúde dos animais visando a prevenção e a identificação de doenças, para conferir confiabilidade ao trabalho proposto pelos grupos de TAA. A rotina de higienização prévia dos animais também é essencial, devendo ser constituído por banhos, escovação, limpeza de conduto auditivo e escovação dentária, antes de cada visita terapêutica.

Qualquer sintoma de doença que possa vir a trazer risco para o paciente assistido e/ou mal-estar para o animal, deve ser motivo para o afastamento temporário ou definitivo deste, de suas atividades junto ao grupo. Ainda, as alterações de caráter essencialmente estético tais como pequenas lesões de pele, secreções oculares e até mesmo áreas de tricotomias são fatores limitantes pois podem causar repulsa ou resistência por parte dos pacientes ou de seus responsáveis em se aproximar dos cães.

Baseado na experiência positiva de outros projetos, o Curso de Medicina Veterinária, em parceria com unidade auxiliar CAOE, (Centro de Assistência odontológica a Excepcionais) do Curso de Odontologia da Unesp de Araçatuba, criou o projeto de extensão “Cão-Cidadão- Unesp”, com os seguintes objetivos:

· Manter, no campus do Curso de Medicina Veterinária, cães labradores adestrados, para utilização da diminuição da tensão gerada pela espera no atendimento e pelo próprio tratamento odontológico, em pacientes especiais a serem atendidos pelo Centro de Assistência odontológica a Excepcionais (CAOE).

· Despertar, no aluno de graduação do curso de Medicina Veterinária, a sensibilidade para a utilização de animais de companhia com fins sociais e terapêuticos, demonstrando a importância destes animais em nossa sociedade.

· Permitir, ao aluno de graduação do curso de Odontologia, o contato com novas técnicas de diminuição de estresse e de facilitação do atendimento odontológico através da TAA.

Tal projeto, que atua desde outubro de 2003, conta hoje com uma equipe 15 integrantes de várias especialidades (médicos veterinários, adestradores, cirurgiões-dentistas, psicólogos, fisoterapeuta, estudantes de medicina veterinária e de odontologia), realizando uma visita semanal ao CAOE. Atualmente três cães da raça Retriever Labrador e um da raça Golden Retriever participam destas visitas sendo que, mais dois cães estão em fase de adestramento para serem acrescentados ao grupo.
Os resultados têm sido altamente satisfatórios com melhoria de comportamento e da cooperação dos pacientes no atendimento dentário, o que está sendo acompanhado de perto pela psicóloga (figuras 1 e 2). A demonstração de higienização bucal nos cães também tem dado excelentes resultados através da maior motivação do paciente em “imitar” os animais.
FIGURA 2: A FOTO DEMONSTRA POR SI MESMA A AFINIDADE ENTRE A MENINA E A CADELA “CACAU”

Diversos tipos de pacientes com limitações físicas e/ou mentais são atendidos naquele centro, variando desde pequenos déficits de atenção e aprendizado até à paralisia cerebral severa, passando pelos autistas, os portadores de síndrome de Down e de outras síndromes. Recentemente as atividades do grupo foram ampliadas para o atendimento de uma Instituição que atende exclusivamente pacientes autistas, que apresentam graves distúrbios afetivorelacionais e são altamente beneficiados com a terapia, demonstrando significativa melhoria em seus comportamen- tos pró-sociais.

O trabalho tem despertado grande interesse da imprensa e da comunidade em geral e, várias outras atividades estão sendo organizadas para atender á crescente procura de outras instituições interessadas tais como as APAES (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) da cidade de Araçatuba e de outras cidades vizinhas, exigindo uma constante ampliação do grupo e dos animais utilizados.

Todos os participantes da equipe são unânimes em dizer que o trabalho é altamente gratificante e que os maiores beneficiados são eles próprios que encontraram neste projeto, uma nova perspectiva de vida e de atuação profissional.




 
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