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Papo-cabeça
no Boletim Informativo
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Café
com Níquel Náusea
Como a arte transformou a vida de um Médico
Veterinário
Boletim Informativo - Nº35 - 2004
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No
horóscopo chinês seu signo é “Rato Metálico”.
Na fantasia e na vida ele também se sente um rato.
Proposital? Não, mera coincidência! Ele é o Médico
Veterinário Fernando Gonsales.
O paulistano de 43 anos tem esse nome porque o
avô, espanhol de nascimento, cansado que estava
de ouvir os brasileiros pronunciarem o seu nome
incorretamente, decidiu aportuguesá-lo. “Hoje
o problema é explicar para todo mundo porquê o
meu nome não é com zê!” diz bem humorado.
Ele conta que se tornou veterinário por acaso:
“o princípio de tudo é o fato de gostar de animais”,
diz ele. “Quando somos crianças nunca se tem certeza
de nada e eu gostava de desenhar. Mas, todo mundo
dizia: o desenho não dá dinheiro! Então você busca
outra opção, que no meu caso foi a veterinária.
E, na medida que o desenho foi ocupando a minha
vida, a veterinária foi saindo!”. |
SIMPATIA, IRREVERÊNCIA, DOSADAS
COM UMA CERTA TIMIDEZ: ESSE É O RETRATO COLORIDO
DE GONSALES
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Gonsales formou-se na turma de 1983 na USP. Sua passagem
pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
foi marcada por sua criatividade e uma certa irreverência,
que o fazia admirado por todos os seus colegas. Fazia
cartazes para as comunicações do Diretório e passava
o dia desenhando, mesmo durante as aulas. Um de seus
trabalhos de parasitologia foi todo feito em quadrinhos:
“o professor deu os pontos porque as informações eram
corretas, mas foi a contragosto”.
Como Veterinário, Gonsales trabalhou pouco. Sua primeira
e última experiência foi a recepção dos animais silvestres
capturados na área inundada de Tucuruí: “eu recebia
os animais, fazia uma avaliação, tratava os que necessitavam
e já os encaminhava para as áreas que estavam sendo
repovoadas com a fauna. Foi pura enrolação: trabalho
para aparecer nos noticiários da época!”, reconhece
ele, com um tom de revolta.
Ao retornar de Tucuruí, Gonsales deparou com um anúncio
de um concurso de charges promovido pela Folha de
São Paulo. Enviou seu trabalho e aguardou. Ganhou
e foi convidado a integrar o quadro de ilustradores
do jornal. Hoje, a Folha é apenas um dos jornais entre
os 12 que publicam diariamente suas tirinhas.
Dinheiro? Talvez o mesmo que os veterinários estão
ganhando. “O mercado é pequeno, desabafa o ilustrador
e o desenho é uma alegria que se concretiza somente
quando é publicado, exige persistência e muito suor.”
O trabalho de Fernando Gonsales consome seis, às vezes
dez horas por dia. Além das tirinhas com as quais
é conhecido, produz ilustrações de livros, revistas
e anúncios e, é claro, outros desenhos por gosto e
por encomenda. Primeiro ele faz os primeiros traços
a lápis, depois passa para o nanquim, escanea e colore
no computador.
Gonsales conta que são mais de 4800 desenhos publicados,
a maioria com o personagem que, segundo ele, é o seu
próprio retrato: o Níquel Náusea.
- O rato vive no universo humano, mas não é domesticável.
Convive com o ser humano e se esconde dele, atua no
meio onde está, o modifica, mas de forma anônima,
misturada ao desequilíbrio geral do planeta.
Fernando Gonsales confessa que também é tímido e admite
que o seu personagem nasceu na mesma data de seu aniversário,
mas teve a sua personalidade moldada através de suas
próprias experiências, antes mesmo de existir como
traços e formas de tinta sobre o papel: “o personagem
amadurece com o tempo. No início o Níquel Náusea era
bravo, revoltado, queria contaminar o mundo com a
peste bubônica. Hoje não, ele já está quase um Zen.
É mais reflexivo e, como eu, entende o ser humano
como um dos animais presentes na natureza”.
Casado, sem filhos e sem bichos, Gonsales diz que
está, como o seu personagem, preocupado com os destinos
do planeta terra: “A quantidade de gente (e ratos)
no mundo é insustentável e não há remédio que não
seja a educação e essa é decorrente de um processo
muito lento que interessa a poucas pessoas no mundo!”
Analisando o seu trabalho, ele o acha um bom veículo
para a educação. “Mas nem todos o vêem assim – reconhece
e complementa - na verdade é muito ruim pensar para
quem você está desenhando, um fator que pesa na educação.”
Gonsales recebeu o pessoal do Boletim
para um bate papo que durou quase duas horas. Magro,
alto sem ser comprido, de um jeito bem informal que
deixa todo mundo à vontade, fez café, saboroso e aromático,
e falou de sua vida pós-veterinária.
“A cada edição, uma tira inédita de Fernando
Gonsales”.

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