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Vida
não é brinquedo, animal não é presente.
Dar animais de presente pode
ser uma maneira de criar um problema para
a cidade
Boletim Informativo - Nº37 - 2004
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Ninguém sabe dizer o número,
mas é certo que depois de festas tradicionais
como páscoa e natal, aumenta o número de animais
abandonados nas clínicas e parques de São Paulo.
O mesmo acontece em todo o mundo: segundo a
WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal),
mais da metade dos coelhos, cães e gatos adquiridos
nesses períodos, são abandonados. Em São Paulo
são 25 mil cães e gatos recolhidos anualmente
pelo Serviço de Controle de Zoonoses, dos quais
apenas 1.200 conseguem um novo lar.
Os motivos para o abandono são vários: viagem
de férias e ninguém para abrigar o animal, desistência
do “brinquedo”, o trabalho gerado pelo animal,
uma eventual deficiência física ou doença, problema
de comportamento e outros. É sempre o mesmo
artifício: à noite abandonam nas portas de faculdades
ou de hospitais veterinários, nas clínicas,
nos parques municipais ao amanhecer, ou mesmo
à plena luz do sol, nas feiras e parques da
cidade. Nos pet shops, geralmente entregam o
animal para um procedimento, fazem mil recomendações
e nunca mais retornam, deixando o mascote para
quem se interessar.
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VOLUNTÁRIOS ALIMENTAM OS GATOS
ABANDONADOS NO PARQUE DA ÁGUA BRANCA.
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Diariamente o Serviço de Zoonoses
da Prefeitura de São Paulo tira das ruas cerca de
60 animais entre cães e gatos, menos de 20% consegue
abrigo, os demais são sacrificados, mesmo destino
dado a animais abandonados em clínicas: não há como
alimentar a todos. Ongs (Organizações não governamentais)
de proteção à vida animal de todos os tipos promovem
feiras e campanhas de posse responsável. Uma das feiras
é feita todos os anos em outubro, no dia de São Francisco,
o santo protetor dos animais, pelo CCZ de São Paulo:
“é o momento em que muitos animais vacinados e castrados
encontram novos donos” conta Drª Luciana Hardt, diretora
do CCZ de São Paulo comemorando o sucesso que a iniciativa
vem tendo. O veterinário e adestrador Dan Wroblewski,
43, acredita que o abandono é falta de conscien-tização
do que é posse responsável: “com o aumento da insegurança
mais pessoas, especialmente da classe média, estão
vendo os animais como aliados, mas não se dão conta
das responsabilidades que essa companhia exige. Muitas
vezes, se entusiasmando com um filhote ou com os conselhos
de um conhecido, a pessoa acaba comprando um animal
sem se importar com o fato de que ele cresce, adoece,
envelhece, exige dedicação, educação e alimentos e
nem sempre pode acompanhar o dono em todos os lugares
e, sobretudo, lembra, se reproduz”.
-Qualquer aumento de dificuldade pode gerar a necessidade
do abandono e isso não é difícil, basta ter um momento
de falta de escrúpulo. Dan é proprietário de um Hotel
para cães, e freqüen-temente se vê às voltas com animais
que são “esquecidos” por seus donos. A incidência
é tanta que Dan passou a exigir documentos e comprovantes
de residência dos proprietários de seus hóspedes,
e mesmo assim, acontece de um ou outro animal ser
abandonado.
O período após oNatal é uma temporada de animais abandonados.
Pressionados pelas crianças muitos pais adquirem filhotes
para doar de presente. No fundo têm esperanças de
que os animais ensinarão aos filhos a ter mais responsabilidades,
afinal, o compromisso é sempre de que a criança vai
incumbir-se de cuidar do cão ou do gatinho.
A rotina do dia a dia, entretanto é diferente. Nem
sempre a criança desempenha bem as tarefas, o filhote
rói móveis e roupas, faz suas necessidades no tapete
da sala e chora no meio da noite. Irritados, pais
e mães logo se vêem na compulsão de livrar-se do intruso.
A primeira tentativa é de passar o problema para frente.
Querem doar para o avô, o tio que tem chácara, o porteiro
do prédio e, diante da total impossibilidade optam
pelo abandono.
A maioria dos veterinários têm histórias para contar
de ninhadas inteiras abandonadas na porta da clínica,
o cãozinho com coleira preso na maçaneta, ou simplesmente
largado no interior dos parques.
Os cães, mesmo filhotes, tendem a seguir seus donos,
o que já não acontece com os gatos. São esses últimos
que infestam os parques, como o Parque da Água Branca,
em São Paulo, onde a direção calcula a existência
de quase 500 animais. Abandonados, os gatos são alimentados
por voluntários, crescem, procriam e aumentam o problema
do município.
- A solução é a sociedade aderir à posse responsável
– diz Drª. Luciana Hardt – é a pessoa, antes de adquirir
o animal conhecer suas necessidades, suas exigências
e avaliar se vale realmente à pena ter o bicho ou
não. Somente depois de refletir com toda a família,
analisando todos os aspectos da vida em comum, ir
à busca do animal e, se for o caso, realizar a sua
castração para evitar problemas futuros!
O PAPEL DO VETERINÁRIO
Se por um lado a população é responsável pelo abandono
de animais, por outro os veterinários devem assumir
de fato o seu papel na sociedade, atuando de forma
educativa e buscando tornar a castração mais acessível
à população de baixa renda.
Desde 1992 o controle de reprodução de cães e gatos
é recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde)
para estabilização da população animal.
Em setembro
de 2003, no Rio de Janeiro, um comitê constituído
por representantes dos países latinoamericanos
e Caribe se reuniu na Primeira Reunião da América
Latina sobre Posse Responsável, realizada pela
Organização Pan-Americana da Saúde/Organização
Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e World Society for
the Protection of Animals (WSPA), quando se confirmou
a necessidade do controle da reprodução, do registro
animal, da educação e legislação mais rigorosa
para controlar efetivamente os cães e gatos e,
conseqüentemente, as zoonoses envolvidas.
Dentre os pontos discutidos nessa reunião, alguns
merecem destaque: |

AO ABRIGO DAS FOLHAGENS, GATOS
ESPREITAM FILHOTES DE AVES QUE CAEM DOS NINHOS
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A educação, controle da reprodução e registro e identificação
dos cães e gatos são as atividades mínimas que devem
ser contempladas em programas de controle animal;
- Programas de controle de cães e gatos devem ser
inseridos nos programas de controle de zoonoses que
envolvam esses animais;
- A necessidade do envolvi-mento dos médicos veterinários
uma vez que a solução do problema do excesso animal
passa pelas suas mãos;
- Atividades para o aumento da idade média dos cães
e gatos devem ser aplicadas uma vez que a alta renovação
não permite a permanência de uma barreira imunológica
animal estável para a própria proteção humana, principalmente
no que diz respeito à Raiva;
- A necessidade de promover não apenas a aquisição,
posse e criação responsável dos animais de estimação,
mas também envolver afetivamente seus proprietários
para diminuição do abandono de animais, trabalhando
mente, mãos e coração nos programas educativos;
- A maioria dos animais soltos em vias públicas possui,
pelo menos, uma pessoa ou “proprietário não assumido”
que os alimenta e, muitas vezes, os abriga.
- Os animais com proprietário são os principais responsáveis
pelo excesso na população animal;
- A grande maioria das agressões é ocasionada dentro
dos próprios domicílios por cães que possuem proprietários.
- A necessidade de facilitar o acesso geográfico e
econômico para as cirurgias de esterilização para
a população em geral.
- A necessidade de normas claras, precisas, dos Ministérios
da Saúde para o controle de cães e gatos nos diferentes
países.
PROGRAMA SAÚDE DO ANIMAL
Servindo como modelo para outros países da América
Latina, o Programa Saúde do Animal (PSA) do Centro
de Controle de Zoonoses de São Paulo surgiu em 2001
com o objetivo de diminuir o número de cães e gatos
abandonados e sacrificados na cidade, além de diminuir
o risco de transmissão de zoonoses por essas espécies.
Desde 1982 e 1984 que São Paulo não vê, respectivamente,
a ocorrência de raiva humana e canina/ felina. Para
que isso tivesse ocorrido, medidas efetivas de vacinação
contra raiva, vigilância, cobertura de foco, apreensão
e eliminação de animais errantes, exames laboratoriais,
foram os suportes necessários, seguindo as recomendações
da OMS. Hoje, a adesão à vacinação e as contínuas
medidas de vigilância provavelmente sustentam o controle
da doença.
Nestes últimos 20 anos a relação homem-animal se intensificou,
mudou de valores. Se partirmos do pressuposto que
a razão homem/animal tem uma correlação positiva,
outras perspectivas podem ser vislumbradas, levando
a crer que embora as populações tenham aumentado nesse
período, observa-se ano a ano, a diminuição do número
de animais apreendidos, portanto abandonados. É na
eliminação desse foco que a sociedade deve caminhar
e exemplos em outros países comprovam e a OMS recomenda,
é necessário novas posturas, mais ética no trato com
o animal, salvaguardada a saúde pública.
Pode-se observar atualmente grande número de instituições
públicas e particulares como clínicas, pet shops,
escolas, centros de saúde, pronto-socorros, parques,
delegacias, que vivem incontáveis situações de animais
jogados às suas portas, além das próprias ruas, onde
se observa toda sorte de problemas que os animais
não supervisionados causam, questões que vão desde
acidentes de trânsito, agressões, crueldade, transmissão
de doenças para outros animais e para o próprio homem.
O abandono toma grandes proporções e a solução está
em outras abordagens, tais como a posse, ou melhor,
a “guarda” responsável, uma vez que enquanto cada
um não tomar para si uma parcela da responsabilidade,
não há como reverter essa situação. A retirada do
animal subentende que providências locais sejam tomadas
para que não haja mais a reincidência do problema.
Visando uma solução para esta questão foi criado o
PSA que tem cinco pilares: educação em posse responsável,
esterilização de cães e gatos em massa, registro de
animais, adoção responsável e incentivo a criação
de leis que dêem suporte a essas ações.
Cabe ressaltar algumas ações que o PSA tem desenvolvido:
1) O Projeto “Para Viver de Bem Com os Bichos” do
PSA, tem como objetivo a educação continuada em posse
responsável e nos anos de 2002 e 2003, treinou 484
escolas particulares e municipais de ensino fundamental
com 359.000 alunos envolvidos. Em 2004 388 escolas
da rede municipal e estadual se envolveram no projeto.
O tema enfatizado no assunto posse responsável foi
a prevenção a agressões.
2) Através do PSA, o CCZ mantém convênio com ONGs
de proteção animal e entre outubro de 2001 e outubro
de 2004 foram realizadas 74.044 cirurgias de esterilização
em cães e gatos subsidiadas, para proprietários sem
recurso.
3) Em 2000, estabeleceu parceria com clínicas veterinárias
para esterilização a baixo custo um mês ao ano. A
partir de novembro de 2003 foi lançada a Rede Veterinária
que conta com 105 clínicos veterinários, distribuídos
que por toda cidade, programa ampliado da parceria
com a PMSP/SMS/CCZ, onde promovem esterilização a
preço baixo permanentemente.
4) Considerando o tamanho das populações canina e
felina e os níveis de esterilização praticados em
outros países com objetivo de controle (onde chegam
de 70 a 80% dependendo da espécie e sexo do animal),
percebe-se a importância de um envolvi-mento mais
amplo por parte dos clínicos veterinários para a participação
com sua cota de responsabilidade social, além de sua
importância enquanto agente de saúde pública.
5) O registro geral do animal (RGA), a partir de fevereiro
de 2002, cadastrou aproximadamente 320.000 animais.
Vale lembrar que o conhecimento do tamanho das populações,
suas características e distribuição norteiam políticas
de saúde animal e saúde pública.
6) O Projeto “Para Ser o Melhor Amigo”, instituído
pelo CCZ, também também assimilado pelo PSA, para
encaminhamento à adoção responsável de animais abandonados,
em parceria com o pet shop Cobasi, as Ongs “Instituto
Nina Rosa” e “Estimação”, e apoiado pela rações Guabi
durante o ano de 2002, encaminhou em 4 anos mais de
4.000 animais. Desde outubro de 2001 esses têm sido
oferecidos, em doação, já castrados.
Dr. Marco Antonio Gioso, presidente da Anclivepa-SP,
vê este fato com cautela ao falar em nome dos associados:
“O papel do veterinário neste caso é claro e inexorável,
porém não podemos arcar com toda responsabilidade
que, por vezes, órgãos governamentais parecem querer
impor”, diz Gioso.
Castrações a baixo custo - como
nossos próprios associados já nos demonstraram em
questionário anterior - pode ser possível e viável,
desde que somente para pessoas de baixo poder aquisitivo
(e não em clínicas de bairros nobres) e sempre com
a participação do Estado”. Por outro lado, cada um
de nós pode e deve fazer aquilo que, na opinião de
cada um, acaba faltando nessa problemática toda: a
informação. “ O público leigo, em geral, não entende
o problema. Para essas pessoas, o problema é o cão!
Não entendem a respeito do controle populacional,
por exemplo. Cabe a cada um, em suas clínicas, estabelecer
sólidos programas de conscientização, mesmo sendo
para uma clientela que você julga bem esclarecida.
Não adianta sentar e esperar o Governo encarar o fato!”.
O debate é o primeiro passo. Há a necessidade de se
manter investimentos na área, além de um envolvimento
crescente por parte da população. A responsabilidade
e o compromisso de cada cidadão para com outros seres
vivos são inversamente proporcionais à densidade populacional
de espécies animais abandonados. Cabe-nos a todos
implementar as mudanças necessárias para o encontro
de um ponto de equilíbrio.
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