Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais
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Ratos e Leptospirose: uma ameaça no verão
SOL, CALOR, CHUVAS E INUNDAÇÕES. RECEITA SEGURA PARA UM TERCEIRO PERSONAGEM: A LEPTOSPIROSE, UMA DOENÇA TÍPICA DECORRENE DA FALTA DE HIGIENE, DE SANEAMENTO BÁSICO E DE EDUCAÇÃO.
Boletim Informativo - Nº44 - 2006

Embora na medicina humana a leptospirose seja uma doença de notificação compulsória, na medicina veterinária não foi criado ainda um fluxo de informações que permita o registro de sua ocorrência. Estudos e observações acadêmicas, entretanto, demonstram que em cada 50 cães examinados, trinta são portadores de pelo menos uma das mais de 200 formas de leptospira, bactéria que embora sensível à luz do sol e aos desinfetantes mais comuns, ainda apresenta alta letalidade entre os mamíferos, incluindo o homem.

A leptospira é transmitida através da urina dos animais infectados, mais comumente dos ratos, daí a sua alta incidência no período de chuvas quando os roedores deixam seus abrigos e invadem o território de homens e cães.

O rato de esgoto (Rattus norvergicus) é o principal responsável pela infecção humana, em razão de existir em grande número e ser de grande proximidade com seres humanos. A L. interrogans multiplica-se nos rins desses animais sem lhes causar danos, e é eliminada pela urina, às vezes durante toda a vida do animal.

Por ser o município mais populoso do país e ter grandes guetos urbanos com alta deficiência de saneamento, São Paulo reúne todas as condições estruturais para ocorrência da leptospirose, tornando-se o município do Estado que anualmente tem o maior número de casos confirmados da doença entre os humanos.

Os últimos 10 anos (período de 1995 a 2004) vêm apresentando coeficientes de incidência e taxas de letalidade variáveis, conforme quadro apresentado ao lado.

Comparativamente ao Estado de São Paulo que apresentou coeficientes de incidência que variaram de 2,84/100 mil hab. em 1995 a 1,33 em 1997 e taxas de letalidade que variaram de 9,54% em 1995 e 17,73% em 2002, observa-se que o Município de São Paulo apresenta incidências e letalidades maiores que o Estado na maioria dos períodos analisados.


Para o Serviço de Zoonoses da Prefeitura de São Paulo, o cão é o sentinela da leptospirose. É ele quem percebe a presença do rato em seu território e é a sua primeira vítima porque o rato é um dos poucos animais que tem o hábito de urinar na água em que bebe e, freqüentemente, o cão também desfruta da mesma fonte, quando não do mesmo alimento, sujeitando- se ao contágio. Mesmo quando vacinado, o cão pode se tornar em um portador assintomático e eliminar a bactéria através da urina, contaminando outros animais e, acidentalmente, o próprio dono.

A Leptospira interrogans penetra através da pele e de mucosas (olhos, nariz, boca) ou através da ingestão de água e alimentos contaminados. A presença de pequenos ferimentos na pele também facilita a penetração, que pode ocorrer também através da pele íntegra, quando a exposição é prolongada, como nas enchentes e inundações.

A leptospirose é uma doença infecciosa febril, aguda, potencialmente grave. É uma zoonose que ocorre no mundo inteiro, exceto nas regiões polares. Em seres humanos, ocorre em pessoas de todas as idades e em ambos os sexos.

A bactéria eliminada junto com a urina de animais sobrevive no solo úmido ou na água que tenha pH neutro ou alcalino. Não sobrevive em águas com alto teor salino. Além dos ratos, são os próprios cães já infectados os principais responsáveis pela transmissão entre os canídeos. O hábito dos cães de se cheirarem mutuamente (principalmente seus órgãos genitais), facilita a transmissão da doença, pelo fato de ser a urina o principal meio de contágio e que contém os agentes, mesmo após a cura do mal, entre animais que se salvam.

O cão infectado pela leptospirose apresentará falta de apetite, vômito, febre e um sintoma bastante característico, a urina de cor amarronzada. A bactéria atinge os rins e o fígado do animal. Alterando as funções hepáticas, a leptospirose causará a icterícia, notada pelo amarelamento das mucosas dos olhos, gengiva.

O tratamento da leptospirose é feito com antibióticos e há chances de cura, porém, ele deve ser iniciado o mais rápido possível ou a vida do animal ficará comprometida.

Em regiões endêmicas é recomendável vacinar o cão duas vezes por ano.

É A PREVENÇÃO O MELHOR TRATAMENTO


Vacinar contra a leptospirose e evitar a presença de ratos é o modo mais fácil de se combater a doença. – “O rato é comensal do homem” explica um técnico do CVE (Centro de Vigilância Epidemológica). Isso significa que onde o homem estiver, ali estará com ele, em um lugar abrigado, alimentado e hidratado, uma das espécies de ratos que se adaptou à essa convivência.

Não se pode precisar o número de ratos existentes em São Paulo. fala-se em milhões, pelo menos sete vezes a população humana, mas o número não passa de mera especulação. *Em seu excelente trabalho (Roedores em Áreas Urbanas) publicado pelo Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura de São Paulo, a Médica Veterinária Drª Neide Ortêncio relata experiências feitas em universos isolados onde se pode constatar hábitos que demonstram a capacidade dos ratos de se adaptar às condições mais diversas do ambiente. “A sinantropia é dinâmica como o próprio ambiente” diz ela demonstrando que, ao perceber a redução do volume de alimentos oferecidos, os ratos reduzem a sua capacidade de procriação, mantendo o equilíbrio da espécie naquele universo.

Conhecer as características do animal é um instrumento para seu combate. São Paulo é infestado por três espécies diferentes de ratos, sendo o mais comum, a ratazana (Rattus norvergicus), que vive no esgoto, nas margens dos córregos, junto ao lixo, atravessa ruas e avenidas e aparece nadando nas enchentes. O rato de telhado (Rattus rattus) que se alimenta de insetos como baratas, além de celulose, ovos e filhotes de aves; e o camundongo, o rápido e flexível Mus musculus.

Para os especialistas, a receita para se acabar com o rato é educação e saneamento básico, ferramentas que requerem vontade política, muito investimento e sobretudo tempo.

Os técnicos entretanto não descartam o papel que os médicos veterinários devem exercer nessa tarefa: a educação dos proprietários, insistindo para que lidem com o alimento e a água de seus animais como se fossem de sua própria família. Se faltar alimentos aos ratos, insistem, eles desaparecem.

(*) Biológico, v.60, nº 2, p.121-124, jul.dez, 1998

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