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Matéria
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O
moderno flautista de Hamelin
Boletim Informativo
- Nº44 - 2006
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Tão
simpático quanto o personagem descrito na lenda
alemã contada pelos Irmãos Grimm, o ítalo-brasileiro
Angelo Boggio é um moderno flautista de Hamelin,
aquele que, tocando uma música encantadora, livrou
uma cidade da invasão de ratos vorazes.
O médico veterinário que há 30 anos livra o Metrô
de São Paulo dos ratos não usa nenhum instrumento
fantástico, apenas o bom senso e o profundo conhecimento
que acumulou em anos de observação dos hábitos
e costumes dos roedores. Sua competência lhe valeu
o apelido: é o Dr. Ratão.
Grandes olhos azuis, sempre bem humorado, Dr.
Boggio se dispõe a contar o que fez para livrar
o Metrô da ameaça dos ratos: “É uma questão de
segurança operacional” diz ele acrescentando:
“os trens só podem trafegar com segurança se não
houver ratos”. |
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Mas como livrar uma determinada área de ratos em uma
cidade infestada, como São Paulo?
- Te ensino o segredo: Abrigo, água, alimento. Os
ratos precisam desses três elementos. Acabe com um
deles e os bichos desaparecem. Água não tem jeito,
explica. Chove, ela vaza de canos, de esgoto, infiltra.
Abrigo: o Metro é um imenso abrigo. Só podemos retirar
o alimento: é o que fazemos!
O que pode parecer extremamente simples quando multiplicado
por uma faixa de 57,7 quilômetros do Metrô torna-se
um exercício de fantástica vigilância. – Todo funcionário
que encontra um rato, ou sinal dele, em alguma parte
do Metrô é obrigado a notificar o centro de controle
que aciona o Dr. Angelo Boggio para caçá-lo. E a caçada
é implacável: limpeza, limpeza e veneno. Doses de
venenos que são aplicadas sobre guloseimas irresistíveis
como chocolates, biscoitos, bacon, atrativos que são
substituídos periodicamente. “A cada 90 dias, os venenos
são substituídos porque se tornam inócuos” explica.
Segundo Dr. Boggio as últimas notificações denunciando
a presença de ratos no Metrô vieram das casas de máquinas
das escadas rolantes: “é o único lugar onde eles encontram
fartura de comida: a poeira que os sapatos dos usuários
do Metrô deixam nos degraus”. Resultado: determinação
de limpeza do compartimento a cada 60 dias e veneno,
mais veneno.
Como veterinário, a história do Dr. Ângelo tem alguns
capítulos: formado na USP em 1968, por uma questão
familiar dedicou- se integralmente ao combate às pragas:
sua família era proprietária de uma indústria que
vivia atacada por ratos e baratas. Sua busca por respostas
o levou a diversas partes do mundo. Estudou ratos
vivos e dissecou pequenos estômagos, analisou conteúdos
e observou com sagacidade os hábitos dos pequenos
animais.
-A presença deles no planeta é tão importante como
a de qualquer espécie. O único problema é que está
desequilibrado, um desequilíbrio que nós, os humanos,
provocamos. E eles se aproveitam disso.
Dr. Angelo Boggio acredita que, ao contrário do que
se imagina, se os ratos desaparecessem a vida não
ficaria nada melhor: teríamos infestação de baratas,
de formigas, de pequenas aves e especialmente, diz
ele, os nossos tubos de esgotos viveriam entupidos,
causando-nos estragos irreparáveis em outros setores
de nossa vida.
Não adianta conter a pergunta: então porque combatê-los?
– No Metrô é por uma questão de segurança operacional.
Os dentes dos ratos têm crescimento permanente. Eles
precisam roer para ter o desgaste e eles querem roer
especialmente fios elétricos, os de mais altas voltagens
aparentemente são mais “apetitosos”. Risonho, Dr.
Boggio conta que em 1975 os roedores provocaram um
incêndio em um trecho do Metrô provocando a paralisação
do sistema durante várias horas.
A eficiência do Dr. Ângelo levou o subprefeito da
Sé, Andrea Matarazzo a convidá-lo para desenvolver
um programa de desratização do centro de São Paulo,
um desafio que ele aceitou em nome do Metrô com uma
única condição, que começaria pelas escolas com educação
ambiental: “Rato é meio ambiente” resume e conclui:
“ se o homem é capaz de estragar um lugar, tem de
ser capaz de recuperá-lo e, ao fazer isso coloca o
rato em seu devido lugar!”.
Entre as lembranças de Faculdade, Dr. Ratão guarda
uma receita: “coelho assado na mufla e comido, no
meio da noite, acompanhado com cerveja gelada nas
soluções de formol. Uma delícia”!
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