Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Artigo científico


IMPORTÂNCIA DA ULTRA-SONOGRAFIA
OCULAR COMO EXAME DE TRIAGEM
PRÉ-OPERATÓRIO DA CATARATA.
Revisão de Literatura

Renata Squarzoni Quinze
Formada em 1997 pela FMVZ-USP
Residência em Clínica de Pequenos Animais entre 1998 e 2000
Mestre em Cirurgia pela FMVZ-USP em 2005

Doutorando em cirurgia pela FMVZ-USP
Sub-coordenadora do Curso de Especialização em Oftalmologia Veterinária

   
    A cirurgia de catarata em cães está cada vez mais acessível em nosso meio. Porém, como a opacificação do cristalino (Figuras 1 e 2), muitas vezes, impede a avaliação pré-cirúrgica do segmento posterior do olho, torna-se necessário o uso de exames complementares que possibilitem essa avaliação. Com o avanço tecnológico da cirurgia de catarata e o interesse do médico veterinário por uma maior previsibilidade dos resultados visuais, é de suma importância a detecção de outras alterações oculares nos pacientes portadores de catarata previamente à realização da cirurgia. Nestes casos, a ultra-sonografia ou ecografia ocular é um método não invasivo, barato e mais indicado, como exame de triagem, para o diagnóstico de eventuais alterações anatômicas do segmento posterior que possam comprometer o resultado visual pós-operatório.


Figura 1 - Catarata em olho de cão.

Figura 2 - Exame ultra-sonográfico, corte axial horizontal, mostrando intumescência e hiperecogenicidade do cristalino (catarata) e segmento posterior.

   Processos inflamatórios ou hemorrágicos vítreos (Figura 3), descolamentos de retina total (Figura 4) ou parcial (Figura 5), tumores intra-oculares, por exemplo, contra-indicam a facectomia e a sua detecção prévia evita anestesia e cirurgia desnecessárias ou resultado visual insatisfatório.


Figura 3 - Exame ultra-sonográfico, corte transversal às 12 horas, mostrando ecos puntiformes em espaço vítreo, sugerindo processo hemorrágico ou inflamatório.

Figura 4- Exame ultra-sonográfico, corte transversal às 6 horas, mostrando descolamento total de retina e ecos puntiformes sub-retinianos, sugerindo processo hemorrágico sub-retiniano.

   A importância da ultra-sonografia ocular na avaliação pré-operatória de pacientes humanos com catarata total foi ressaltada por diversos autores. Estudos mostraram uma freqüência de descolamento de retina de 6,08% e de descolamento de vítreo posterior (DVP) (Figura 6) de 39,13%, citado pelos autores, como o mais importante evento predisponente ao descolamento de retina, em 113 pacientes que foram encaminhados como pré-operatório de facectomia 1. Observou-se, no estudo acima, que cerca de 10% dos pacientes apresentavam alterações que comprometeriam o resultado funcional pós-cirúrgico, caso a ecografia não fosse realizada no pré-operatório (descolamento de retina, hemorragia vítrea, coloboma, alteração macular e papilar). Outro estudo, com amostragem maior, de 509 pacientes portadores de catarata 2, mostrou 4,5% de descolamento de retina e 2,5% de hemorragia vítrea. Uma freqüência de descolamento de retina ainda maior foi encontrada em um estudo posterior, avaliando-se 262 pacientes humanos com catarata total: 9,9% dos casos 3. A eficiência do exame ultra-sonográfico foi comprovada em estudo comparando os achados ultra-sonográficos pré-cirúrgicos com o exame pós-cirúrgico dos mesmos pacientes, para avaliar a sensibilidade e a especificidade do ultra-som como método diagnóstico4. A concordância entre os achados pré e pós-operatórios foi de 95,4%. O ultra-som apresentou sensibilidade de 91,3% e especificidade de 100%, o que confirma a importância desse método diagnóstico na avaliação pré-operatória de pacientes com cataratas densas.


Figura 5 - Exame ultra-sonográfico, corte transversal às 3 horas, mostrando hiperecogenicidade do cristalino e descolamento parcial de retina.

Figura 6- Exame ultra-sonográfico, corte transversal às 6 horas, mostrando descolamento total do vítreo posterior.

    Fazendo ainda uma correlação com pacientes humanos com catarata, um estudo foi realizado para avaliar a repercussão econômica da realização de ultra-sonografia ocular em exame pré-operatório de pacientes com catarata densa, assistidos pelo Sistema Único de Saúde – SUS 5. Neste estudo, o autor concluiu que a quantidade de recursos financeiros empregados para a realização de ultra-sonografia ocular na amostra estudada foi inferior ao valor estimado para pagamento das cirurgias dos pacientes com descolamento de retina que estavam sem indicação de facectomia, permitindo a otimização do destino da verba pública.

   Em cães, poucos estudos foram realizados envolvendo o exame ultra-sonográfico ocular de pacientes com catarata total. Um dos poucos trabalhos em pacientes caninos portadores de catarata foi realizado avaliando, retrospectivamente, 147 casos (277 olhos) 6. Desses animais, 23% apresentavam degeneração vítrea, 11%, descolamento de retina. Outro estudo ultra-sonográfico, mais recente, foi realizado em 95 olhos de 52 cães com catarata, em 2005, no qual foram observados descolamento vítreo posterior em 8,4%, processo inflamatório e/ou hemorrágico vítreo em 2,1% e descolamento de retina em 4,3% dos olhos 7.

   Conclui-se, portanto, que a ultra-sonografia ocular é um exame prático, barato, seguro, fácil de ser realizado, não invasivo e que permite estudo anatômico confiável do segmento posterior, sempre que houver qualquer opacidade de meios que impossibilite o exame oftalmoscópico direto. É um exame de suma importância na detecção de doenças do segmento posterior que contra-indiquem a cirurgia em pacientes com catarata total.

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. LACAVA, A. C.; CENTURION, V. Impotância da ultra-sonografia ocular na avaliação pré-operatória da facectomia. Revista Brasileira de Oftalmologia, v. 56, n. 8, p. 603-606, 1997.

2. ANTEBY, I. I.; BLUMENTHAL, E. Z.; ZAMIR, E.; WAINDIN, P. The role of preoperative ultrasonography for patients with dense cataract: a retrospective study of 509 cases. Ophthalmic Surgeon Lasers, v. 29, n. 2, p. 114-118, 1998.

3. LUPINACCI, A. P. C.; VANINI, R.; ISAAC, D. L. C.; GHANEM, V. C.; ARIETA, C. E. L. Importância da ultra-sonografia ocular na avaliação pré-operatória de pacientes com catarata total. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, v. 67, p. 33-36, 2004.

4. CORRÊA, Z. M. S.; GOLDHARDT, R.; MARCON, A. S.; MARCON, I. M. Achados ecográficos em pacientes com catarata total. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, v. 65, p. 609-613, 2002.

5. GROTTONE, G. T. Repercussão econômica da realização de ultra-sonografia ocular em pré-operatório de pacientes com catarata densa, assistidos pelo Sistema Único de Saúde-SUS. 2003. 51 f. Tese (mestrado profissionalizante em Administração da Prática Oftalmológica) apresentada à Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2003.

6. VAN DER WOERDT, A.; WILKIE, D. A.; MYER, C. W. Ultrasonographic abnormalities in the eyes of dogs with cataracts: 147 cases (1986-1992). Journal of American Animal Hospital Association, v. 203, n. 6, p. 838-841, 1993.

7. QUINZE, R.S. Avaliação ultra-sonográfica do segmento posterior de olhos de cães diabéticos e não diabéticos portadores de catarata. 2005. 119 f. Tese (dissertação de mestrado em Cirurgia) apresentada á Faculadade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, 2005.

 
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