Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Entrevista


O ATUAL CRMV DE SÃO PAULO
Quem é o homem que comanda a Medicina Veterinária em São Paulo? Em entrevista com o presidente do CRMV-SP, o Boletim Informativo – anclivepa-SP vai fundo em questões espinhosas como legislação, estão do dinheiro dos médicos veterinários, auxílio a entidades de classe e política.

Boletim Informativo - Nº 56 - 2008

 

BOLETIM – Dr. Francisco, uma das queixas que os veterinários fazem do Conselho é sua aparente ineficiência. Quando se trata, por exemplo, de fiscalizar o charlatanismo, o exercício ilegal da profissão, há problemas porque depende da ação de policiais que não têm interesse de agir. Como mudar essa imagem?

DR. FRANCISCO - É oportuna a pergunta por que nós mudamos a atuação da nossa fiscalização nesse sentido e hoje tem sido uma das nossas bandeiras, exatamente, atuar no campo do charlatanismo. Já conseguimos prender dois deles. A Policia Militar tem nos ajudado. Estamos pedindo ajuda da promotoria
estadual, notificando ao Estado através da promotoria, bem como à Prefeitura, pedindo providências, porque é um exercício ilegal e está ferindo nossa profissão.
   Acho que é missão do Conselho ir atrás dessas pessoas. Temos hoje 700 profissionais com designação de ouvidor em todo o Estado.

BOLETIM– Quantos fiscais tem, hoje, o Conselho?

DR. FRANCISCO– Temos nove funcionários. São fiscais que atuam no aspecto administrativo, isto é, vão até um estabelecimento, verificam se ele está devidamente legalizado com o Conselho, se tem registro ou não. E a partir daí podemos fazer a fiscalização profissional. Hoje nós temos três colegas médicos veterinários, funcionários do Conselho, que atuam nesses casos especiais.

BOLETIM- A fiscalização, então, é feita por médicos veterinários?

DR. FRANCISCO - Não. É exercida por fiscais concursados do Conselho, funcionários públicos. Nosso Estado tem 645 municípios e nós temos mais de 24 mil empresas cadastradas. Quase 23 mil profissionais. Como resolver isso? Deslocamos cinco fiscais para uma região do estado e fazemos varreduras dessa maneira. Vamos dar um exemplo: no mês de março do ano passado nós fizemos uma varredura em toda a região de Presidente Prudente. Dali resultou um infinito número de autuações. Mais ou menos 50% das empresas estavam devidamente legalizadas com o Conselho. Os outros 50% não. Um mês depois, retornamos dois fiscais àquela região para verificar os estabelecimentos que deveriam se adequar às normas. Fizemos isso em Presidente Prudente, Araçatuba, Marília e São José do Rio Preto. Estamos finalizando Ribeirão Preto e vamos descer até o Vale do Ribeira, uma das regiões mais problemáticas nesse aspecto.

BOLETIM - Quantos Médicos Veterinários estão atualmente registrados?

DR. FRANCISCO– Mais de 23 mil.

BOLETIM - Qual é o índice de inadimplência da anuidade desses profissionais?

DR. FRANCISCO - Quando nós assumimos o Conselho, estávamos com o índice acima de 38% de médicos veterinários inativos. Hoje, esse índice baixou para 16.67%. O que nós fizemos para atingir isso? Primeiro, nos dirigimos ao colega através de carta individual e cordial, pedindo para que ele participasse do Conselho e se regularizasse. Logo em seguida uma outra mensagem àqueles colegas que não nos atenderam. Isso deu resultado.

BOLETIM - O Conselho Regional de São Paulo é um dos maiores, senão o maior, dentre os Conselhos dos Estados brasileiros. Qual é a arrecadação do CRMV-SP hoje?

DR. FRANCISCO - Ela é variável. Estamos hoje com 42 faculdades no Estado! Formam-se em torno de 2 mil a 2,5 mil profissionais por ano. Isso nos possibilita a uma projeção de 6 a 7 milhões de reais de arrecadação anual.

BOLETIM - Quanto que é repassado ao Conselho Federal?

DR. FRANCISCO - Por lei, são 25%.

BOLETIM - De que forma é gasto esse recurso no Conselho?

DR. FRANCISCO– Isso está disponível em nosso site e nas últimas páginas de nosso informativo. Procuramos fazer um trabalho de transparência em que o colega sabe, mês a mês, o que é arrecadado e o que é gasto. Essa é a forma que nós achamos para que o colega veja e diga: “Olha, não está fazendo bobagem”.

BOLETIM - As entidades profissionais que existem no Estado recebem ajuda do Conselho sempre que tomam iniciativas. De que maneira é destinada essa ajuda?

DR. FRANCISCO - Olha, cada pedido é um caso. Hoje esses pedidos são analisados profissionalmente. São dois médicos veterinários para analisar o pedido, quanto a relevância em relação à profissão, se realmente tem interesse ou não tem. A partir daí podemos liberar o recurso dentro das limitações de nosso caixa. Recentemente nós estabelecemos
um limite máximo: o Conselho não vai liberar mais que 15 mil reais para nenhuma entidade. Foi uma decisão do plenário. Essa decisão, a partir deste ano, já está em vigor. Casos excepcionais serão submetidos a plenário.

BOLETIM - Quer dizer, até 15 mil não precisa ser submetido a plenário?

DR. FRANCISCO - Não, não! Aí, a diretoria analisa se há possibilidade de retorno ao caixa ou não e só então limita quanto deve ser liberado. Acima dos 15 mil será submetido a plenário.

BOLETIM - Quantas entidades existem no Estado e quais podem pedir ajuda?

DR. FRANCISCO
- Toda entidade que está cadastrada conosco e que tem trabalho ligado à medicina veterinária. Só faculdades são 42. Associações de classe devem somar em torno de umas 15.

BOLETIM– Quais as condições exigidas para que elas recebam essa ajuda?

DR. FRANCISCO - Está estabelecido em resolução. Existe uma resolução do Conselho que estabelece todas as condições e critérios.

BOLETIM - Quanto o Conselho hoje investe na Anclivepa? O Senhor tem idéia desse montante?

DR. FRANCISCO– Não tenho. No ano passado, o Dr. Gioso nos pediu uma ajuda e nós contribuímos com 30 mil reais para um evento no Guarujá (CONPAFEL e Mundial de Odontologia).

BOLETIM– E o Congresso Paulista, o CONPAVEPA?

DR. FRANCISCO - Não fizemos, a não ser divulgação.

BOLETIM– E porque não?

DR. FRANCISCO - Veja bem, eu acredito que quando você realiza um congresso, deve fazer um estudo da sua viabilidade econômica. Um congresso como esse tem patrocinadores, empresas ligadas ao segmento. Tem valores de inscrições. Alguns profissionais nos perguntaram: porque ajudá-los financeiramente? Nós vamos começar a analisar com muito carinho esta questão porque quando o colega se inscreve no congresso, está pagando pela sua realização. E o Conselho precisa ajudar mais? Por que? Afirmo categoricamente que, hoje, esses são pedidos questionáveis.

BOLETIM– Mas o senhor não concorda que um Congresso torna-se cada vez melhor quanto mais recursos tem para sua realização? Basear um evento desses somente em inscrições pode torná-lo muito caro, o que restringe o acesso de muitos profissionais. Como o senhor vê essa situação, quando o Conselho restringe o investimento em um evento científico e, de certa forma, dificulta a participação de seus próprios profissionais?

DR. FRANCISCO - Veja o que nós observamos quando chegam pedidos desse tipo: vamos pensar no profissional sim, perfeito, mas dar dinheiro do Conselho para fazer conferência, alugar data-show, alugar salas de hotel, isso não. Não é isso.

BOLETIM– Quer dizer então, que na opinião do senhor, é tudo uma questão de projeto?

DR. FRANCISCO - E se esse bom projeto tem retorno à classe. Tem? Mas se é só para fazer “oba-oba”, então tô fora!

BOLETIM– A Anclivepa está trazendo o Congresso Mundial de Clínicos de Pequenos Animais em 2009 (WSAVA 2009) para São Paulo...

DR. FRANCISCO - O Conselho estará lá!

BOLETIM– Mas no limite dos 15 mil?

DR. FRANCISCO - Não. Qual é o projeto? O que isso vai representar para o país inteiro e para São Paulo? Quem são os palestrantes? Aí vai começar: que fulano de tal é meu amigo, beltrano não sei o que...Vamos ver o nível desse congresso. Isso é importante, trará novidades aos colegas? Mas eu vou fechar uma sala ou cinco salas de palestras, que a gente tem conhecimento que não acrescenta muito? É a qualidade do projeto, isso é importante.

BOLETIM– E que grau de importância o senhor acha que tem um evento mundial deste porte sendo realizado aqui em São Paulo?

DR. FRANCISCO - Se eu comentar qualquer coisa agora serei anti-ético comigo mesmo, visto que a intenção do grupo é extremamente importante e boa. Temos que aprimorar. Eu acho o seguinte: tudo que existe de tudo o que foi feito é uma boa intenção. É com a visão de melhorar, de fortalecer a classe. Nós vamos melhorar cada vez mais, reduzindo até taxas de inscrição para o profissional, porque ele é muito castigado no mercado. São muitos impostos. Cada entidade cobra anuidade. O importante é que a entidade ofereça congressos a preços acessíveis e é aí que entram os patrocinadores.

BOLETIM - O Conselho ouve as associações antes de tomar medidas referentes aos diversos setores da medicina veterinária?

DR. FRANCISCO - Não. Hoje nós temos 16 comissões técnicas e cada assunto é submetido a elas. Quando os temas se interligam, passa de comissão para comissão, para que o Conselho depois tome a decisão final. Hoje temos comissões como a do Clínico, de Bem Estar Animal, de Saúde Pública, entre outras. Os colegas que não participaram, têm acesso através do nosso site para que tenham conhecimento do decreto original e de nossa proposta. Feito isso, em 30 dias nós formalizamos a proposta e levamos ao governo ou autoridade competente, as alterações que desejamos.

BOLETIM - A forma de habilitação desses 2,5 mil novos profissionais, todos os anos, vem sendo questionada. Qual é a opinião do Conselho com relação a isso?

DR. FRANCISCO - Veja bem: há mercado de trabalho para todos, mas depende de cada profissional. A medicina veterinária é extensa. Nós cuidamos da produção de matriz, somos responsáveis por melhoramento genético, formação de matéria prima para abate, industrialização, exportação, comercialização. Caprinos, piscicultura, isso é matéria prima de fornecimento de proteínas. É o grande anseio da sociedade. Ter alimento de qualidade e essa responsabilidade é nossa. A linha farmacêutica veterinária, no ano passado, faturou mais de 2 bilhões de dólares. O mercado é imenso. Ainda existem as vacinas, rações, suplementos alimentares. Há médicos veterinários no INMETRO, nos zoológicos, na polícia federal, na receita federal, na vigilância sanitária, nos municípios.


BOLETIM - Quem é o veterinário de maior visibilidade junto à população na opinião do senhor?

DR. FRANCISCO - Vamos voltar um pouco, quando você fez uma pergunta sobre as faculdades e qual seria a posição do Conselho com relação a isso. Eu digo que é preocupante. Mas veja que São Paulo hoje é impedido de realizar o exame nacional. Isso seria um limitante. Estamos conseguindo uma alteração que foi aprovada no senado, na câmara, no congresso. Eu acredito que até o mês de junho deste ano o Presidente da República sancione esse decreto e, a partir daí, o exame vai ser obrigatório em todo o território nacional, legalmente.

BOLETIM - Qual é o maior segmento veterinário do Estado?

DR. FRANCISCO - Olha, hoje é difícil mensurar, mas a clínica de pequenos animais, principalmente nos grandes centros, nas grandes cidades é muito grande. É um volume, talvez, de quase 30% em nosso Estado. Isso dá cerca de 6,5 mil profissionais. O restante é setor público, setores privados como farmacêutico, de alimentos, de proteína animal, de vigilância, de fiscalização e de perícia.

BOLETIM - O Governo tem sido um péssimo empregador?

DR. FRANCISCO - Sim, principalmente o Governo Federal. Hoje há uma deficiência no Ministério Público de mais de 5 mil profissionais.

BOLETIM - Se o senhor vê tamanha importância na inspeção da veterinária, como é que o Governo supre essa falta de profissional? Não está havendo fiscalização?

DR. FRANCISCO - Existe fiscalização. Mas, ela é pontual. O Governo está pensando em terceirizar determinados segmentos da inspeção, da produção e oficializar segmentos importantes, como o da matéria-prima.

BOLETIM - Há quantos anos o Conselho está neste prédio?

DR. FRANCISCO - A primeira gestão neste prédio foi a do Jardim (Dr. Francisco Sergio Ferreira Jardim), em que o José Alberto (Dr. José Alberto Pereira da Silva) era o vice-presidente. Isso foi em 1989. Acho que há uns 15 anos mais ou menos.

BOLETIM - Algum plano de mudar, de sair daqui?

DR. FRANCISCO - Estamos estudando. Eu acho que o Conselho cresceu. A gente tem que encarar o Conselho como uma Igreja. Porque se você soma 23 mil profissionais com 24 mil indústrias, são 47 mil. Então tem o aspecto político, o aspecto empresarial e o aspecto profissional, que é de fundamental importância.

BOLETIM - Quantos processos hoje tramitam na comissão de ética?

DR. FRANCISCO - Numerar é difícil, mas são poucos hoje. Nós fizemos um perfil desde 92 até agora. Alguns processos até caducaram e aqueles mais atuais, a comissão está analisando. Em execução ética mesmo, uns 20 processos. Mas há uma modalidade um pouco diferente: quando recebemos uma denúncia, coletamos informações primeiro e conversamos depois. Isso tem surtido efeitos extremamente positivos.

BOLETIM - Dentro dos processos éticos que tramitam no CRMV-SP, quantos são frutos de denúncias de colegas e quantos são de origem externa?

DR. FRANCISCO - Olha, 99% é externo.

BOLETIM - E atinge que setor da atuação?

DR. FRANCISCO - Clínica Veterinária.

BOLETIM - No CRMV-SP existem diversas comissões que dão suporte às decisões da Presidência. Como é o funcionamento dessas comissões e de que modo elas atuam?

DR. FRANCISCO - O Presidente tem autonomia para convocar as comissões. E elas podem pedir autorização para se reunir também. Eu peço a pauta da reunião e essa reunião tem o acompanhamento de dois médicos veterinários que nós temos aqui como funcionários nosso. O objetivo é estabelecer condições para uma ação junto ao Governo Federal, Estadual, Municipal. Recebemos, por exemplo, o Presidente do Conselho de Fisioterapia Humana que queria uma parceria com o CRMV-SP, pois alguns fisioterapeutas humanos estavam fazendo cursos na veterinária, fazendo tratamento de fisioterapia em cavalos.

BOLETIM - Como é esta relação?

DR. FRANCISCO - É um respeito mútuo dos Conselhos de outros profissionais, ninguém querendo entrar na área de ninguém. Todos os setores trabalham tranqüilos. Cada vez mais a veterinária tem se especializado. Como tem que ser. Um exemplo é a Associação Brasileira de Cardiologia Veterinária: fantástico! E tem mais: esses colegas têm cursos até em hospitais de cardiologia.

BOLETIM - Uma das grande críticas que se faz é em relação à forma de escolha dos membros do Conselho Federal. Qual é sua opinião?

DR. FRANCISCO - Acho que o Presidente do Conselho Federal tem que sair dentre presidentes. São Paulo, por exemplo, conviveu com uma onda de auditorias, intervenções. Tem que ter experiência em um Conselho para estar lá no Conselho Federal e tratar de assuntos assim.

BOLETIM - Como é hoje.

DR. FRANCISCO - Mas hoje já se aceitou que algum candidato que não fosse do sistema CRMV fosse candidato ao Federal. Nós já tivemos vários exemplos de Presidentes do Federal que eram colegas que não estavam no sistema. Foram lá e se candidataram. Minha posição é contrária.

BOLETIM– Isso não gera o risco de perpetuação do poder?

DR. FRANCISCO - Não porque nós também estamos discutindo um máximo de duas gestões iguais para o federal e o regional. É importante a renovação, novas lideranças e novos vínculos.

BOLETIM– Há poucos veterinários na política?

DR. FRANCISCO - Temos um senador (Senador Jonas Pinheiro, falecido em 19 de fevereiro), cinco deputados federais, um ou dois no Estado, alguns vereadores e alguns vice-prefeitos. Deve ter uns quatro vice-prefeitos e uns 10 vereadores. Temos que começar em investir em alguém.

BOLETIM - O senhor tem alguma aspiração polícia desse tipo?

DR. FRANCISCO - Não. Em uma reunião que tive em Rio Claro, declarei que vou ser candidato ao Conselho Federal. Eu falo: não sou político. Mas nós temos que ter alguém que seja. Essa é nossa missão. Nós temos que investir em alguém que tenha essa vontade política de chegar lá, não podemos perder isso. Estamos perdendo um campo fantástico.

Reportagem e fotos: Roberto Drumond
Texto e edição: Daniel Ferro

 
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