Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Artigo científico

CARCINOMA ADRENOCORTICAL EM ROTTWEILER – ASPECTOS ULTRA-SONOGRÁFICOS, RADIOLÓGICOS E ANATOMOPATOLÓGICOS.

Guilheme Sellera Godoy
MV. Formado pela UDESC/Lages-SC
Mestre em Neuropatologia Veterinária pela UNESP/Jaboticabal-SP

Professor de Patologia Veterinária - UNIMONTE/Santos-SP
Médico Veterinário Patologista - Spécialité Diagnóstico Veterinário

Cláudia Matsunaga Martín
MV. Formada pela FMVZ-USP
Mestre em Clínica Cirúrgica - enfoque em Ultra-sonografia - FMVZ-USP
Médica Veterinária Ultra-sonografista - Spécialité Diagnóstico Veterinário
Sub-coordenadora do Curso de Especialização em Diagnótico por Imagem da ANCLIVEPA-SP.

RESUMO

   As neoplasias adrenocorticais estão entre as principais causas de hiperadrenocorticismo em cães, sendo que o principal método de diagnóstico de rotina destes tumores é a ultrasonografia associada a exames anatomopatológicos.

   Relata-se o caso de um Rottweiler com nove anos de idade apresentando sinais clínicos de hiperadrenocorticismo que foi encaminhado a um centro de diagnóstico veterinárioa para a realização de exame ultra-sonográfico abdominal. Constatou-se a presença de massa na glândula adrenal direita. Foi realizada punção aspirativa e, nos exames anatomopatológicos, diagnosticou-se carcinoma adrenocortical, possivelmente a lesão predisponente para a síndrome de Cushing.

INTRODUÇÃO

   As neoplasias que acometem o córtex das glândulas adrenais são raras nos animais domésticos, sendo os cães os mais acometidos. Entre essas, destacam-se o adenoma adrenocortical, o carcinoma adrenocortical, o mielolipoma e o neuroblastoma de cães jovens3,4,7.

   O carcinoma adrenocortical ocorre com maior freqüência em cães idosos, com média de 11 anos de idade, sendo que fêmeas de raças grandes são mais atingidas.

   Geralmente essas neoplasias secretam cortisol, o qual pode gerar sinais clínicos de hiperadrenocorticismo, sendo que 10 a 20% dos cães com síndrome de Cushing apresentam como causa as neoplasias adrenocorticais1.

   Macroscopicamente, os carcinomas adrenocorticais são grandes e nodulares, apresentam coloração que varia do amarelado ao marrom avermelhado, são friáveis e podem ocorrer em ambas as glândulas adrenais3,4.

   Os carcinomas adrenocorticais unilaterais geram atrofia da glândula adrenal adjacente devido à retroalimentação negativa na hipófise (causada pela secreção de cortisol), impedindo a liberação de ACTH. Além disso, podem invadir tecidos próximos como a veia cava caudal, a artéria aorta abdominal e a artéria renal. As metástases são raras, sendo os pulmões, fígado e rins os órgãos mais atingidos.

   Pelos métodos de imagem as neoplasias das glândulas adrenais são indistinguíveis quanto ao comportamento8.

   Embora não seja possível determinar o tipo neoplásico através do exame ultra-sonográfico, devido a uma grande variedade de manifestações já relatadas, sabe-se que os tumores adrenocorticais apresentam-se, em geral, como nódulos ou massas complexas, de diferentes dimensões e ecogenicidades, podendo ou não evidenciar focos hiperecogênicos associados a sombreamento acústico e calcificação2,6,8.

   As neoplasias só podem ser observadas em imagens radiográficas quando apresentam grandes dimensões e mineralização.

   RELATO DE CASO

   Foi encaminhado ao Spécialité Diagnóstico Veterinário® um cão da raça Rottweiler, fêmea, 09 anos de idade apresentando, ao exame físico, ptose abdominal, vasos sangüíneos da região ventral abdominal proeminentes e calcificação cutânea multifocal (Figura 01).

   A radiografia abdominal demonstrava a presença de área homogênea com limites pouco definidos, medindo aproximadamente 7,0 x 5,0 cm, localizada cranialmente à silhueta do rim direito, sugerindo presença de massa (Figura 02).


Figura 1 - Rottweiler apresentando sinais
clínicos de Hiperadrenocorticismo.

Figura 2- Radiografia de cavidade abdominal
demonstrando área homogênea cranial ao rim direito.

   No exame ultra-sonográfico da cavidade abdominal observou-se em topografia de glândula adrenal direita a presença de massa arredondada, de contornos irregulares e aproximadamente 6,0 x 5,4 cm, hipoecogênica, com focos hiperecogênicos produtores de sombreamento acústico (calcificações), entremeados ao parênquima, sugerindo neoplasia de glândula adrenal (Figura 03). A glândula adrenal esquerda não foi visualizada, possivelmente, devido à sua atrofia.

Dorsalmente à massa, verificouse fluxo sanguíneo normal da veia cava caudal, através do Doppler colorido (Figura 04). Nos demais órgãos da cavidade abdominal, não foram observadas alterações ultrasonográficas.


Figura 3- Ultra-sonografia de massa arredondada,
de contornos irregulares, de aproximadamente
6,0 X 5,4 cm, hipoecogênica, com focos
hiperecogênicos produtores de
sombreamento acústico (calcificações),
entremeados ao parênquima. Glândula adrenal.

Figura 4- Sonograma do fluxo sangüíneo normal da
veia cava caudal, dorsalmente à massa da glândula adrenal.


    Foi realizada punção aspirativa com agulha fina guiada por ultra-som utilizando-se o Citoaspirador de Valeri com seringa de 10 ml e agulha 40 x 0,7 mm acoplados.

   Após a colheita do material foi possível realizar o exame citopatológico e histopatológico devido à punção de acentuada quantidade de material com consistência friável, do qual, parte, foi fixada em formol a 10%.
    Ao exame citopatológico notou-se a presença de acentuada quantidade de células neoplásicas agrupadas ou isoladas, apresentando anisocitose e anisocariose moderada e relação núcleo/citoplasma baixa. As células eram grandes e ovaladas, apresentavam citoplasma abundante, pouco delimitado e vacuolizado e núcleos grandes e ovalados contendo um único nucléolo evidente. Mitoses atípicas não foram observadas.

   No exame histopatológico realizado com parte do material aspirado verificou-se a presença de proliferação de células neoplásicas originadas de células da região cortical da glândula adrenal. As células estavam agrupadas e apresentavam pleomorfismo celular leve; eram grandes e ovaladas, apresentavam citoplasma amplo, pouco delimitado, vacuolizado e eosinofílico; núcleos grandes e ovalados contendo um único nucléolo evidente. Mitoses atípicas não foram observadas (Figura 05).


Figura 5- Fotomicrografia de células neoplásicas
originadas da região cortical da glândula adrenal.
Carcinoma adrenocortical (HE x20).


DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

   Devido à disponibilidade, ao baixo custo e à não necessidade de anestesia, o exame ultra-sonográfico constitui o método de escolha no diagnóstico presuntivo de massas de glândulas adrenais.

   Por meio deste exame, delimitam-se as dimensões da neoformação adrenal, sendo possível também avaliar metástases em órgãos abdominais e a presença da invasão de vasos adjacentes, quando aliado à técnica Doppler.

   Ao utilizar a técnica Doppler para a avaliação do fluxo vascular, vale lembrar que, além da presença de invasão vascular pela massa, trombos podem estar presentes em vasos importantes, alterando o fluxo sanguíneo, já que quadros de hipercoagulação podem acompanhar os casos de hiperadrenocorticismo. Ademais, quando o objetivo for avaliar mais precisamente a extensão da invasão local, a tomografia computadorizada deve ser solicitada.

   O jejum alimentar prévio do animal possibilita ao ultra-sonografista a visualização das glândulas adrenais com maior eficiência, facilitando a realização da punção aspirativa.

  O exame citológico é importante para se diferenciar as neoplasias adrenocorticais de processos inflamatórios e hiperplásicos. Entretanto, a citologia não é um método definitivo de diagnóstico para a classificação das neoplasias, pois os carcinomas podem apresentar pleomorfismo leve, assim como os adenomas.

   Deve-se ter alguns cuidados antes de se realizar a punção aspirativa das glândulas adrenais devido a possibilidade de ocorrência de estímulo para a liberação de catecolaminas, o qual acarretaria taquicardia e outras alterações simpáticas.

  Em alguns casos é possível a realização de exame histopatológico e imunoistoquímico a partir de material aspirado das glândulas adrenais. Com isso, tem-se a classificação do processo neoplásico,
auxiliando o prognóstico e as intervenções cirúrgicas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

  É rotina nos centros de diagnósticos existentes no Brasil, a avaliação das afecções, em conjunto, por médicos veterinários patologistas, ultra-sonografistas e radiologistas.

   Nos casos das neoplasias de glândulas adrenais é importante a realização dos exames anatomopatológicos e a avaliação pelo Doppler para se observar o comportamento e a extensão da massa a fim de auxiliar o cirurgião.

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ALLEMAN A.R. Endocrine System. In: Raskin R.E.; Meyer D.J. Atlas of canine and feline cytology. W.B. Saunders Company, 2001 p. 325-336.

2. BESSO, J.G., PENNINCK D.G.; GLIATTO J.M. Retrospective ultrasonographic evaluation of adrenal lesions in 26 dogs. Veterinary Radiology and Ultrasound, v. 38, n. 6, p. 448-455. 1997.

3. CAPEN C.C. Tumors of the Endocrine Glands. In: MEUTEN D.J. Tumors of Domestic Animals. 4a Ed. Ames, 2002.

4. JUBB K.V.F, KENNEDY, P.C., PALMER N. Pathology of Domestic Animals. 4a Ed. Academic Press, 1993.

5. LABELLE P., KYLES A.E., FARVER T.B., DE COCK H.E. Indicators of malignancy of canine adrenocortical tumors: histopathology and proliferation index. Veterinary Pathology v.41 (5) p.490-497, 2004.

6. LISTE F., CUEVAS M., GASCON M., GARCIA DE JALON J., CUEVAS, I. Ultrasonographic diagnosis of an adrenocortical carcinoma in a dog. Veterinary Record, v.140, n. 13, p. 339-341, 1997.

7. MARCOTTE L., MCCONKEY S. E., HANNA P., FOLEY P., BURTON S. Malignant adrenal neuroblastoma in a young dog. Canadian Veterinary Journal v.45 (9) p.773-776, 2004.

8. NYLAND T.G., MATOON J.S., HERRGESEL E.J., WISNER E.R. Adrenal glands. In: NYLAND T.G., MATOON J.S. Small animal diagnostic ultrasound. 2 ed. Philadelphia: W.B. Saunders Company, 2002, p. 196-206.

9. TURSI M., IUSSICH S., PRUNOTTO M., BURACCO P. Adrenal Myelolipoma in a dog. Veterinary Pathology v.42: p.232-235, 2005.

 
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