Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

Home| ANCLIVEPA-SP| Filiar-se| Contato| Diretoria| Ouvidoria| Tesouraria       
 
Artigo científico

GRIPE AVIÁRIA: DEVO ME PREOCUPAR NO MEU CONSULTÓRIO?

Cristina Fotin
Clínica Veterinária Jardim Esther - Butantã - SP
Especialização em homeopatia pelo Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos - IBEH-SP

Mestre em Ciências pelo Departamento de Patologia da FMVZ-USP
Coordenadora do Curso de Especialização em Animais Silvestres na Clínica Veterinária - ANCLIVEPA-SP

Com a chegada das estações frias, as aves sofrem mais com doenças respiratórias. A gripe aviária é uma delas. Esta influenza tem merecido destaque ultimamente em decorrência dos casos em humanos que provocaram muitas mortes. Conheça as normas de controle no Brasil e no mundo, qual é o verdadeiro comportamento do vírus causador da gripe aviária e quais os riscos de contaminação na América do Sul.

INTRODUÇÃO

   Com a chegada do outono e a aproximação do inverno, há significante aumento de distúrbios respiratórios nas aves de estimação e de criação, geralmente associados à diminuições abruptas de temperatura ambiental e da umidade relativa do ar.

  Diversas afecções respiratórias como sinusites, rinites e pneumonias costumam ocorrer e estão associadas à variadas etiologias, como infecções bacterianas, fúngicas e virais, infecções mistas e presença de corpos estranhos. Alguns fatores predisponentes estão geralmente associados, como deficiência de vitamina A na dieta que acarreta metaplasia escamosa das células epiteliais, tornando as mucosas mais frágeis, em especial, a respiratória. Parasitoses intestinais e manejo ambiental incorreto com exposição das aves a ventos e alterações bruscas de temperatura podem também contribuir para uma maior incidência de afecções respiratórias em aves.
   Com a aproximação do inverno, geralmente há maior número de aves de estimação com distúrbios respiratórios e o clínico de pequenos animais e de animais silvestres é freqüentemente indagado quanto a esclarecimentos sobre uma preocupante doença contagiosa - a gripe aviária.


A GRIPE AVIÁRIA

  A influenza aviária ou gripe aviária é resultante de uma infecção nas aves causada por um influenzavirus tipo A (Família Orthomyxoviridae), cujas cepas podem variar desde baixa até alta patogenicidade, de acordo com as manifestações clínicas que provocam. A distribuição do vírus é mundial, atingindo amplo espectro de aves como galiformes (galinha, peru, pavão, faisão, etc), anseriformes (patos, gansos, cisnes, etc) e passeriformes, tendo sido também descrita em diversas espécies de psitaciformes (cacatua, papagaio cinza africano, periquito australiano).

    Os subtipos de baixa patogenicidade provocam manifestações respiratórias leves a moderadas como espirros, tosse, apatia e secreção nasal, com eventual evolução para pneumonia, além de diminuição na produção de ovos. A doença resulta em baixa ou média mortalidade, havendo, geralmente, remissão da doença após rápida instituição de tratamento.

   Os subtipos H5 e H7 do vírus de influenza aviária são considerados de alta patogenicidade, podendo causar doenças com manifestações graves como alterações neurológicas (ataxia locomotora), circulatórias (edema de barbela, crista, articulações e patas) e hemodinâmicas (hemorragias musculares). Resulta em alta mortalidade que chegam a índices de 50 a 80 % das aves de uma região. Estas cepas do vírus da influenza encontram-se circulantes, de forma epidêmica entre as aves da Ásia e Europa, provocando a morte de milhares delas. Tanto as cepas de influenza aviária de baixa patogenicidade quanto as de alta patogenicidade apresentam caráter zoonótico, sendo as últimas extremamente perigosas para o seres humanos.


TEMPO DE INCUBAÇÃO NS AVES

   O tempo de incubação nas aves dos subtipos H5 e H7 pode variar de 1 a 14 dias, com média de 3 dias, podendo haver óbito das aves durante este período.


TRANSMISSÃO


   A transmissão ocorre por meio de secreções de aves infectadas (contágio por inalação do vírus) ou por contaminação da água, alimento e solo pelas fezes de aves contaminadas. Equipamentos como botas, rodas de tratores e caminhões podem servir como vetores mecânicos, disseminando o vírus entre fazendas ou viveiros. Roedores, da mesma maneira, podem disseminar o vírus. As aves migratórias, principalmente aves aquáticas, disseminam o vírus entre as aves domésticas através das fezes, ao compartilhar o mesmo local ou abrigo. Os patos selvagens são reservatórios naturais e, em suas rotas migratórias, disseminam o vírus por meio das fezes, apresentando, eventualmente, manifestações leves da doença.

    Outra forma de disseminação da doença é através de ovos contaminados em incubatórios, uma vez que o vírus permanece viável por 3 a 4 dias após a postura do ovo. A importação de aves, produtos e de material genético constitui outra forma de introdução da doença em diversos países.

    Após a infecção, as aves podem eliminar o vírus nas fezes por cerca de 10 dias. Aves silvestres podem eliminar por cerca de 30 dias. As aves sobreviventes tornam-se imunes contra a doença e não permanecem portadoras por longo prazo.


DISSEMINAÇÃO ENTRE PAÍSES

   Entre países, a gripe pode se propagar de diversas formas, por meio de:
- comércio de aves domésticas vivas ou de seus produtos contaminados;
- aves migratórias, principalmente patos selvagens, que são reservatórios naturais do vírus da influenza, sendo resistentes à infecção;
- comércio ilegal de aves exóticas.


CARÁTER ZOONÓTICO

   O ser humano pode se contaminar com o vírus por meio da exposição às aves afetadas ou manipulação de aves mortas. Não há evidências de transmissão por ingestão de ovos ou consumo de carne congelada ou cozida de aves.

   Infecções humanas por vírus da influenza, mesmo os de baixa patogenicidade, são preocupantes, uma vez que estes vírus podem produzir mutações em curto prazo (6 a 9 meses), para uma cepa de alta patogenicidade (no caso de haver circulação em populações de aves domésticas).

   Os casos de doença causada pelo subtipo H5N1 (alta patogenicidade) são considerados perigosos para o ser humano, principalmente para os funcionários de granjas e abatedouros de aves.

  Anteriormente, os vírus de influenza aviária infectavam suínos, e estes infectavam o homem. Provavelmente devido ao contato freqüente entre seres humanos e diversas espécies de aves, principalmente em criações comerciais, houve alteração no comportamento do vírus, surgindo, assim, a transmissão direta da ave para o homem. Até o presente momento, não há evidência de transmissão do vírus da influenza aviária de um ser humano para outro. Se este fato ocorrer, aumentam os riscos de uma pandemia.

   Em 1997, foi detectada, pela primeira vez, a transmissão direta do vírus A H5N1 da ave para o homem, afetando 18 pessoas e provocando seis óbitos. A partir de 2003, diversos países asiáticos
realizaram notificação de surtos da influenza aviária de alta patogenicidade em galinhas, patos, aves selvagens e suínos. Até o presente momento, foram notificados à Organização Mundial da Saúde (OMS) 379 casos de influenza A subtipo H5N1, com 239 óbitos, o que representa uma taxa de letalidade de 63%.

   No Brasil, a gripe aviária de alta patogenicidade é considerada exótica, não havendo evidências da circulação do vírus A H5 e H7 nas granjas comerciais.

PREVENÇÃO

   A prevenção da disseminação do vírus entre países é realizada a partir de algumas ações:

- redução da possibilidade de exposição humana ao subtipo H5N1, por meio de detecção rápida de surtos
em aves domésticas e introdução de medidas emergenciais de controle (recomendação da OMS), como destruição de todas as aves afetadas ou expostas e descarte adequado das carcaças;
- vacinação dos profissionais ligados ao setor de avicultura com vacinas disponíveis contra a influenza humana, nos países onde ocorrem surtos de influenza aviária, na tentativa de diminuir a circulação de cepas humanas e animais.

   No Brasil, as medidas adotadas para evitar a entrada da doença, segundo orientações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) são:

- restrição do ingresso de material genético avícola nos aeroportos e nos postos de fronteira com os países do Mercosul;
- implantação de detectores de matéria orgânica para controle de bagagens e de passageiros;
- credenciamento de laboratórios para diagnósticos sorológicos;
- implementação do cadastro nacional de granjas avícolas;
- elaboração de normas técnicas para registro de aves de corte e postura;
- finalização do plano de contingência para a gripe do frango no Brasil.

   Apesar do Brasil ser exportador de aves (e não importador) e das aves migratórias aqui presentes circularem apenas nas Américas (e não entre a Ásia e Europa, onde se encontram os países afetados pelo vírus subtipo H5N1), as medidas de controle e prevenção estabelecidas pelo MAPA devem ser rigorosamente cumpridas, evitando-se riscos de entrada do vírus no Brasil.

   A OMS e a Rede de Vigilância Global da Influenza encontram-se trabalhando para o desenvolvimento de uma vacina contra a cepa A H5N1 para posterior produção, em larga escala, de vacina para seres humanos. As medidas de prevenção ou diminuição de risco de transmissão para seres humanos recomendadas pela OMS são:

- utilização de equipamento adequado de proteção para os funcionários de abatedouros e transportadoras de aves, como roupas impermeáveis, luvas de borracha, máscara N95, óculos de proteção e botas de borracha;
- lavagem freqüente das mãos com água e sabão;
- limpeza do ambiente na área de abate, com utilização do equipamento de proteção pessoal;
- monitoramento de todas as pessoas expostas a aves infectadas e suspeitas de contaminação, pelas autoridades sanitárias locais;
- utilização de antigripais para tratamento de suspeitas de infecções respiratórias causadas pelo vírus A H5N1, após avaliação médica;
- utilização da vacina contra influenza humana nas pessoas mais expostas;
- monitoramento dos funcionários de abatedouros e granjas e de suas famílias;
- afastamento do trabalho para pessoas com alto risco de complicações por influenza em granjas e abatedouros (imunossuprimidos, pessoas acima de 60 anos, pessoas com alterações cardíacas ou doenças pulmonares).

PANDEMIA

   Caso o subtipo H5N1 do vírus da influenza aviária (cepa circulante em pelo menos 13 países da Europa e Ásia) sofra uma mutação e adquira a capacidade de ser transmitido diretamente entre seres humanos, há o risco de uma pandemia mundial, sendo que todos os países podem ser atingidos em maior ou menor grau. Esta possibilidade existe, mas não se sabe quando e se irá ocorrer.

Sites recomendados para leitura

Maiores informações sobre o plano de contingência no Brasil podem ser encontradas no website do Ministério da Saúde: www.saude.gov.br.

Outros websites de interesse são:
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento: www.agricultura.gov.br;
Agência Nacional de Vigilância Sanitária: www.anvisa.gov.br;
Organização Mundial da Saúde: www.who.int

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

RITCHIE, B.W.; HARRISON G.J.; HARRISON L.R. Avian medicine: principles and application. Lake Worth: Wingres Publishing Inc, 1994;

Websites CONSULTADOS

http://portal.saude.gov.br/portal/saude
http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/en
(acessos em março de 2008)



 
Site atualizado por MV Jonathan Ferreira