Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais
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Artigo científico

PANCREATITE AGUDA EM GATOS

Alexandre Gonçalves Teixeira Daniel
Formado pela FMVZ-USP
Residência em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais - HOVET - FMVZ/USP

Monitor do Curso de Especialização em Medicina de Felinos - ANCLIVEPA/SP

A pancreatite aguda é comumente diagnosticada em cães e humanos, mas dificilmente em gatos. A dificuldade encontrada decorre das poucas manifestações clínicas específicas, exames laboratoriais
com baixa especificidade e pouco conhecimento da enfermidade. Este artigo traz alguns dados de fácil consulta que podem facilitar o diagnóstico e abreviar o tratamento da enfermidade.

ANATOMIA E FISIOLOGIA

   Os gatos possuem um diferente desenvolvimento embriológico e anatômico do pâncreas quando comparado a outras espécies, incluindo os cães. O ducto pancreático acessório, nos felinos, geralmente não é persistente, tendo 80% dos gatos somente um ducto pancreático1,2.

   O ducto pancreático acessório adentra o duodeno através da papila duodenal menor e o ducto pancreático principal, através da papila duodenal maior. Em gatos, esse é o principal e, freqüentemente, único ducto pancreático aberto para a luz duodenal, em contigüidade com o ducto biliar1,2,3.

   O papel primário do pâncreas exócrino é o de promover a digestão e assimilação do alimento ingerido. Para tanto, produz zimogênios e enzimas ativas (lipase, amilase e procoenzima colipase), além do fator inibidor da tripsina e secreção de bicarbonato2,4.


FISIOPATOLOGIA

   A pancreatite é um processo complexo e multifatorial que culmina na inapropriada ativação de zimogênios dentro do parênquima pancreático2,3. Os eventos que iniciam a mudança ou alteração dos mecanismos de autoproteção são pouco compreendidos, mas assume-se que a pancreatite em gatos tenha decurso semelhante à de cães e humanos3,5.

   A ativação inapropriada intracelular do tripsinogênio em tripsina inicia o dano ao parênquima pancreático que é perpetuado pela ativação dos demais zimogênios (inclusive o próprio tripsinogênio não convertido) em virtude da ação da tripsina livre nas células. O dano tecidual é amplificado em virtude dos radicais livres resultantes da peroxidação lipídica celular que gera aumento de permeabilidade capilar e dano à membrana endotelial locais.

   O acúmulo de radicais livres e a presença de isquemia local podem levar à piora da inflamação e dano ao parênquima pancreático. Com as proteases ativadas e os mecanismos de autoproteção não funcionais, a lesão pode permitiro extravasamento das enzimas para o interstício pancreático e cavidade peritoneal4. A pancreatite também pode ser desencadeada por um inapropriado refluxo duodenal no ducto pancreático, levando enzimas ativadas ao parênquima pancreático e iniciando a cascata de eventos descrita anteriormente6. Em gatos, acredita-se que a infecção bacteriana é fator importante no desenvolvimento da pancreatite.

PREVALÊNCIA E FATORES DE RISCO

   O diagnóstico ante mortem da pancreatite em gatos é incomum, em virtude da baixa incidência e (ou) dificuldade de estabelecer diagnóstico definitivo7. Porém, existem crescentes evidências de que a pancreatite ocorra em gatos mais freqüentemente que o estimado, porque mesmo com o diagnóstico clínico sendo pouco realizado, o exame post mortem acusa o processo por diversas vezes1,4,8, mostrando a deficiência de diagnóstico definitivo desta enfermidade.

   Nenhuma predisposição etária ou sexual foi encontrada em gatos com pancreatite. No entanto, a doença é mais reportada em animais com mais de 7 anos de idade. Dentre as enfermidades pancreáticas em gatos, a pancreatite aguda corresponde em 15,7% dos casos9.


ETIOLOGIA


  Em 90% dos casos, a etiologia da pancreatite felina permanece incerta9. Afecções no trato biliar podem predispor à inflamação pancreática. Afecções que se localizem distalmente ao ducto biliar comum (infecção e cálculo) podem predispor a pancreatite aguda em virtude da relação funcional entre o ducto biliar comum e o ducto pancreático no felino10.

   Weiss6 relata a ocorrência significativa de pancreatite e, concomitantemente, doença inflamatória intestinal (DII) em gatos portadores de colangiohepatite. Existem diversos fatores que contribuem para esta associação: a DII é uma doença bastante comum no gato doméstico, sendo seu sintoma mais comum nessa espécie, a emese. A emese crônica predispõe osanimais afetados a maior pressão intraduodenal e refluxo pancreático-biliar11. A microbiota do intestino proximal dos gatos, quando comparada com a dos cães, apresenta carga bacteriana significativamente maior (108 versus 104 organismos por ml). Levando em conta a particularidade anatômica da papila duodenal nesta espécie e fatores como o citado anteriormente, considera-se que o refluxo duodenal gerado pela DII pode aumentar a incidência da inflamação pancreática na espécie felina, assim como o acometimento hepático
associado (tríade felina)8.

   Traumas, manipulação cirúrgica, fármacos, infecções pelo vírus da peritonite infecciosa dos felinos e pelo Toxoplasma gondii também são causas relatadas8.

   A administração de glicocorticóides é sugerida como causa de pancreatite em cães, mas a evidência deste fator em gatos não foi comprovada. Da mesma forma, a hiperlipidemia e hipertrigliceridemia não são fatores correlacionados com a doença em felinos2,3.

ACHADOS CLÍNICOS

   O sintoma mais comum em gatos com pancreatite é a anorexia (100%), seguidos por letargia (97%) e desidratação (92%)6, ainda que estes sintomas não sejam patognomônicos de pancreatite. Outros achados de exame físico são taquipnéia (74%), hipotermia (68%), icterícia (64%), taquicardia (48%), dor abdominal (25%), presença de massa em região epi- ou mesogástrica (23%), dispnéia (20%), ataxia (15%) e febre (7%)4,6.

   Uma importante diferença entre gatos e cães com pancreatite é a baixa ocorrência de dor abdominal e vômito nos felinos. Entretanto, a avaliação da presença de dor abdominal na espécie felina pode ser difícil, podendo tornar subestimado este parâmetro na maioria dos trabalhos.


Figura 1- Pavilhão auricular ictérico de felino com pancreatite e lipidose hepática associadas.



Figura 2- Animal com salivação decorrente de náusea.


ACHADOS LABORATORIAIS E DIAGNÓSTICO

   Os achados hematológicos verificados na pancreatite aguda são inespecíficos (anemia, leucocitose ou leucopenia). Achados bioquímicos incluem aumento nos valores de bilirrubina, colesterol, alanino aminotransferase (ALT), alanino aspartatotransferase (AST), fosfatase alcalina (FA), amilase, uréia e creatinina e hipoalbuminemia4. Indicadores de injúria hepatocelular (ALT e AST) aumentam devido a isquemia hepática ou por exposição direta dos hepatócitos às toxinas e enzimas pancreáticas3,8.


   Amilase e lipase não possuem especificidade ou sensibilidade no diagnóstico da doença. Os níveis podem estar aumentados em doenças renais, corticoideterapia (podendo estar aumentada mais que cinco vezes os valores de referência), doença gastrintestinal, doenças inflamatórias, peritonite e desidratação4,12.

    Hipocalemia e hipocalcemia também são encontradas. Quando os valores de cálcio ionizado apresentam-se menores que 1,0 mmol/L, um pior prognóstico é referido e indica-se terapia emergencial e mais agressiva que o usual, em virtude desses gatos terem grandes chances de óbito. Valores baixos de albumina também são freqüentes12.

    Técnicas de radioimunoensaios espécie-específicos foram desenvolvidas recentemente para a mensuração da imunorreatividade de anticorpos anti-tripsina e anti-tripsinogênio (fTLI), assim como da lípase pancreática felina (fPLI). Para a pancreatite aguda, a fTLI deve ser usada com cautela, por existirem resultados controversos e ausência de valores estabelecidos para a espécie9. Já para a fPLI, valores de sensibilidade e especificidade de 80% e 75% respectivamente foram encontrados, tornando este teste laboratorial de escolha para o diagnóstico da pancreatite aguda em gatos.

    O exame ultra-sonográfico vem se mostrando, cada vez mais, uma ferramenta útil no diagnóstico da pancreatite felina. Alterações de ecogenicidade do órgão e ao redor do mesmo, hiperecogenicidade mesentérica e nas estruturas biliares (ducto biliar comum dilatado, espessamento da bile na vesícula biliar, ducto panreático dilatado), podem ser encontrados. A visualização do órgão normal não descarta a pancreatite em gatos13.

    O diagnóstico definitivo é realizado através de biópsia e histopatológico, sendo o exame “gold standard” para o diagnóstico da doença12.

TRATAMENTO

   O tratamento da pancreatite felina é complexo e requer atenção frente às muitas facetas da doença. Envolve fluidoterapia agressiva para a correção da desidratação, manutenção do volume intravascular e manutenção da perfusão pancreática12.

   
Plasma fresco ou congelado, assim como sangue total, são indicados em animais com alteração nos tempo de coagulação e hipoalbuminemia4,12.

   Gatos não devem ser privados de alimentação, pois não existe nenhum benefício comprovado do jejum frente à pancreatite felina, além de poder ocorrer a exacerbação da lipidose hepática4,6.

    Se o animal é incapaz de se alimentar ou ingerir água por mais de 2 a 3 dias, rotas alternativas de suporte nutricional devem ser consideradas para prevenir o aparecimento da lipidose hepática, má nutrição, atrofia de vilosidades e translocação bacteriana4,12. Sonda nasogástrica, tubo esofágico e tubo gástrico são boas opções de nutrição enteral em gatos, com boa aplicabilidade12.

    O controle da dor é crucial no suceso do tratamento da pancreatite. Opióides são os fármacos de eleição, como o fentanil (2-4 µg/kg em bolus e, após, 1-4 µg/ kg/hora em infusão constante), a buprenorfina (0,01-0,02 mg/kg a cada 4-8 horas IV/IM), meperidina (1-2 mg/kg a cada 2-4 horas IM), butorfanol (0,2 – 0,4 mg/kg a cada 2-4 horas IM) e a hidromorfona
(0,1-0,2 mg/kg)12.

    Outro importante ponto no controle da pancreatite em gatos é a terapia medicamentosa no controle da náusea e vômito. Tais fármacos devem ser utilizados, visando melhorar a qualidade de vida do animal e aumentar o conforto frente à alimentação enteral que lhe será oferecida. Anti-eméticos de ação central são as melhores escolhas, tendo entre elas, a metoclopramida (0,2-0,5 mg/kg a cada 8 horas, SC; ou em infusão contínua na dose de 1 a 2 mg/kg/dia ou 0,1 a 0,3µg/kg/ min). Os inibidores da serotonina, como o ondansetron (0,5 a 1 mg/kg a cada 12-24 horas PO ou IV) ou o dolansetron (0,3 a 0,5 mg/kg a cada 12-24 horas, SC ou IV) podem ser úteis quando associados à metoclopramida no controle do vômito12.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

   A pancreatite felina apresenta diferentes facetas, sendo uma doença de caráter clínico pouco específico. Sintomas vagos como anorexia, desidratação e vômito devem alertar o clínico para a pancreatite como um dos diagnósticos diferenciais. Embora não realizada no Brasil, a mensuração da imunorreatividade da lipase pancreática felina é uma excelente opção. Porém, a realização dos exames laboratoriais básicos de triagem e do exame ultra-sonográfico são de grande valia, auxiliando o clínico no diagnóstico de uma possível pancreatite, acompanhada ou não de colangiohepatite e/ou doença
inflamatória intestinal.

BIBLIOGRAFIA

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3 WILLIAMS, D.A. the pancreas.In: GUILFoRD, W.G.; CENTER, S.A.; STROMBECK, D.R.; WILLIAMS, D.A.; MEYER, D.J. Strombeck’s Small Animal Gastroenterology, WB Saunders, 3rded, p.381-410, 1996.

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6 WEISS, D.J.; GAGNE, J.M.; ARMSTRONG, P.J. Relationship between inflammatory hepatic disease and inflammatory bowel disease, pancreatitis and nephritis in cats. Journal of Veterinary medical Association, v.42, p.2036-2048, 1996.

7 SCHAeR, M. Acute pancreatitis in the cat. Feline Practice,v.19, p.24-25, 1991

8 HILL, R.C.; VAN WINKLE, T.J. Acute necrotizing pancreatitis and acute suppurative pancreatitis in the cat: A retrospective study of 40 cases (1976-1989). Journal of Veterinary Internal medicine, v.7, p.25-33, 1993.

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10 WASHABAU, R.J. Feline acute pancreatitis – important species differences. Journal of Feline medicine
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11 BAEZ, J.L.; HENDRICK, M.J.; WALTER, L.M.; WASHABAU, R.J. Radiographic, ultrasonographic and endoscopic findings in cats with inflammatory bowel disease of the stomach and small intestine. Journal of American Veterinary medical Association, v.215, p.349- 354, 1999.

12 ZORAN, D.L. Pearls of veterinary practice – Pancreatitis in cats: Diagnosis and management of a challenging disease. Journal of American Animal Hospital Association, v.42, p.1-9, 2006.

13 WALL, M.; BILLER, D.S.; SCHORING, P.; OLSEN, D.; MooRe, L.e. Pancreatitis in a cat demonstrating pancreatic duct dilation ultrasonographically. Journal of the American Animal Hospital Association, v.37, p.49- 53, 2001.

 
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