Este
relato de caso mostra a doença periodontal
acometendo um cão da raça Sheepdog
de 3 meses de idade e ilustra a importância
de se atentar para o exame da cavidade oral dos
animais logo nos primeiros dias de vida.
RESUMO
A doença periodontal é
comumente observada nos animais domésticos.
Apesar de sua prevalência estar mais voltada
aos animais adultos e de pequeno porte, animais
jovens e filhotes também podem ser acometidos
pela doença. Hábitos alimentares
inapropriados, alterações dentárias,
imunodeficiência, falta de higiene oral,
entre outros, são fatores que podem propiciar
o acúmulo de placa, cálculo e o
desenvolvimento de infecção periodontal,
lesionando os tecidos de suporte dentário.
Entretanto, fatores extrínsicos como dermatopatias
e ectoparasitas também podem favorecer
ao desenvolvimento de ambiente propício
e agravar a doença. Uma vez instalada a
doença periodontal, o seu tratamento através
de raspagem e polimento constitui a melhor forma
de eliminá-la e é com métodos
preventivos que se obtém maiores índices
de manutenção de uma boa saúde
oral. Portanto, o Médico Veterinário
deve estar sempre atento ao exame da cavidade
oral desde a época de vacinação
dos filhotes, avaliando o desenvolvimento da dentição,
das bases ósseas mandibulares e maxilares
e ainda, orientando quanto à necessidade
de se iniciar, ainda na dentição
decídua, cuidados domiciliares de higiene
oral. Com base nestes aspectos, relata-se um caso
de doença periodontal grave em um animal
da espécie canina, raça Sheepdog
de três meses de idade.
INTRODUÇÃO
A
doença periodontal representa um dos problemas
de saúde mais significantes e comuns na
Medicina Veterinária, afetando a maioria
dos cães. Esta associada ao acúmulo
de placa e cálculo na superfície
dentária, tanto acima como abaixo da gengiva
marginal (supra-gengival e sub-gengival) causando
dor e infecção da cavidade oral,
com eventual perda de dentes e predispõe
o animal a doenças sistêmicas causadas
pela absorção de substratos bacterianos
e suas toxinas1,5,8.
O foco deste processo patológico
é a conversão do sulco gengival
normal em ambiente patológico, resultando
em inflamação infecciosa da gengiva
e dos componentes de aderência dentária:
a fixação do epitélio juncional
ao dente, o ligamento periodontal, a superfície
cementáriada raiz e o osso alveolar. Como
resultado, ocorre gengivite e periodontite. Gengivite
é um processo completamente reversível,
envolvendo a inflamação da gengiva
marginal. Periodontite é a progressão
irreversível da doença dentária
onde observase migração apical (em
direção ao ápice da raiz)
do epitélio juncional (epitélio
de fixação gengival ao dente), levando
à reabsorção do osso alveolar
que circunda as raízes dentárias.
Na perda de aderência epitelial, o sulco
aprofunda-se numa bolsa periodontal, criando um
ambiente anaeróbio que facilita a proliferação
das bactérias patogênicas, além
de promover a destruição dos tecidos10.
Inicialmente, instalam-se bactérias
grampositivas aeróbias. Após 24
horas já existe uma fina camada de placa
bacteriana organizada na superfície dentária
denominada de induto mole ou bio-filme, exceto
naquelas áreas que são limpas naturalmente
com a abrasão do alimento. Após
vários dias, o crescimento da população
inicial da placa confere um aspecto áspero,
adesivo, mas invisível, que favorece a
retenção e crescimento de outros
microorganismos. Com o crescimento, maturação
e extensão da placa para o sulco gengival,
o ambiente se torna favorável ao desenvolvimento
de anaeróbios, que geralmente são
considerados os microorganismos responsáveis
pelas mudanças patogênicas levando
à destruição dos tecidos
periodontais e perda do ligamento periodontal10.
Sem a intervenção terapêutica,
a afecção periodontal resulta em
uma perda progressiva da fixação
gengival, dos ligamentos periodontais e do osso
alveolar, resultando em mobilidade dos dentes
e eventual esfoliação (perda do
dente)9.
A
perda do suporte ósseo pode vir acompanhado
de hiperplasia ou retração gengival.
Esta reabsorção aparece mais rapidamente
e mais severamente nas regiões da furca
do que nas zonas interproximais8.
Os
sinais da doença periodontal podem variar.
Os mais usuais são: halitose, mobilidade
dentária, tumefação facial
assimétrica, retração gengival,
hemorragia gengival leve a moderada e secreção
nasal. O exame da cavidade oral através
de sondagem periodontal e avaliação
radiográfica pode revelar a presença
de abscessos periodontais ou periapicais, bolsas
periodontais (com ou sem inflamação
gengival ativa), e fístulas oro-nasais.
Mais raramente pode apresentar-se com hemorragia
gengival grave, hemorragia nasal, fraturas patológicas
da mandíbula, úlceras de contato
da mucosa oral e osteomielite ou osteonecrose
grave, com ou sem seqüestro ósseo.
Os donos de animais com afecção
periodontal relatam observação freqüente
de alguns sintomas inespecíficos que podem
estar relacionado a dor oral crônica como
alterações de comportamento, bater
ou ranger os dentes, hesitação em
abrir e fechar completamente a boca, diminuição
da mastigação de seus objetos mastigatórios,
levar as patas à boca e à face,
relutância em efetuar os comportamentos
treinados de mordedura, alterações
da personalidade (animal mais passivo ou mais
agressivo), dificuldades de apreensão,
mostra-se retraído durante a manipulação
da cabeça ou da boca ou preferência
por alimentos moles. Espirros, corrimento nasal
unilateral e o ato de lamber incessantemente o
focinho são ocorrências comumente
observadas em pacientes com doença periodontal
avançada quando acompanhada de fistulação
oronasal11.
Há
fatores que predispõe a progressão
da gengivite e doença periodontal como,
por exemplo, a resposta individual do animal hospedeiro
à infecção e esta resposta
pode alterar-se por condições numerosas:
aumento da idade, tensão (psicológica,
ambiental, ou fisiológica), afecções
sistêmicas como uremia, distúrbios
endócrinos como diabetes e imunossupressão
como a ocorrente nas infecções virais10.
Outros fatores são o excessivo apinhamento
dos dentes (especialmente em animais de raças
de pequeno porte ou braquicefálicas), proteção
salivar diminuída, má oclusão,
retenção de dentes decíduos,
anomalias dentais (como dentes supranumerários
ou hipoplasia do esmalte), dietas com alimentos
úmidos e animais de raças de pequeno
porte (sulco gengival menor e crista alveolar
mais delgada)8.
O
tratamento da doença periodontal tem como
objetivo a redução ou eliminação
dos microorganismos patogênicos das superfícies
coronais e radiculares, mediante a raspagem com
curetas ou com o uso de equipamento de ultrassom,
seguido do polimento com pasta profilática
ou pedra pomes em taça de borracha. Um
bom tratamento exige limpeza minuciosa das coroas
dentárias, das bolsas periodontais e das
superfícies cementárias das raízes
(aplainamento). Bolsas periodontais mensuradas
acima de 4 a 5mm podem depender de um acesso cirúrgico
(raspagem aberta) com a realização
de retalhos gengivais11. Os casos mais graves
necessitam de extrações múltiplas,
podendo elevar o tempo de procedimento para mais
de três horas4.
Como
métodos preventivos, sabe-se que dietas
duras e fibrosas ajudam a retardar o acúmulo
de placa muito mais do que as dietas enlatadas
e úmidas. Objetos para mastigar têm-se
mostrado importantes na redução
da placa associados com uma alimentação
seca. Já os cães e gatos alimentados
com dieta caseira apresentam maior incidência
de doença periodontal2. Mas, o método
preventivo mais efetivo é a escovação
dentária realizada diariamente. Os proprietários
dos cães e gatos devem ser informados da
importância em se escovar os dentes de seus
animais já na época da primeira
vacinação. Os filhotes se acostumam
facilmente ao procedimento; já em um animal
adulto, pode-se encontrar maior dificuldade em
seu adestramento3,6.
De
acordo com Hale (2008), várias doenças
orais podem ser detectadas nos filhotes e tratadas
precocemente, prevenindo sérias complicações
na fase adulta. Dentre elas, o autor descreve
a microglossia, defeitos de palato, maloclusões,
fraturas em dentes decíduos, falhas na
erupção dentária, persistência
de dentes decíduos, formação
de cistos dentígeros, dentes impactados,
presença de dentes supranumerários,
apinhamentos e rotações dentárias,
odontomas, fraturas de mandíbula e maxila
e tumores orais. Em casos onde faz-se necessária
a exodontia, sugere-se a realização
de radiografias intra-orais para a verificação
da presença e localização
do dente permanente em desenvolvimento e luxar
o dente cuidadosamente para não lesar o
germe dentário permanente, com o uso apropriado
de pequenos e delicados cinzéis e fórceps.
RELATO DE CASO
Um animal da espécie
canina, raça Sheepdog, de três meses
de idade, foi atendido em uma clínica particular,
onde o proprietário queixava-se de hiporexia,
halitose, sangramento oral, dor à manipulação
da boca e prostração. Não
havia relatos de traumas recentes ou outras doenças
sistêmicas graves, apenas prurido moderado
e constante. Exames laboratoriais como hemograma,
função renal e hepática revelaram
resultados dentro da normalidade.
Após exame físico
geral, verificou-se a presença de doença
periodontal grave na cavidade oral, com inflamação
aguda e sangramento da gengiva, presença
de reabsorção óssea alveolar,
osteomielite e exposição de furca
grau III em dentes pré-molares superiores
e inferiores (figura 1). Na região rostral,
verificou-se mobilidade dental, reabsorção
óssea, osteomielite e exposição
radicular em dentes caninos e incisivos inferiores
devido à presença de pêlos
presos entre estes dentes (figura2), verificou-se
a presença de pulgas, levando a um quadro
de dermatite alérgica por picada de pulgas
(DAPP). Devido ao prurido, o animal coçava-se
incessantemente e mordiscava a região do
flanco. O ranger dos dentes contra os pêlos,
fazia com que muitos fios ficassem presos entre
os dentes decíduos. O proprietário
não realizava nenhum exame da cavidade
oral, assim como a higienização
da boca ou escovação dentária
e o não percebeu que havia corpo estranho
entre os dentes do animal. Relatou ainda que,
em consultas anteriores com Médicos Veterinários,
o animal não havia sido submetido ao exame
dentário pelos profissionais.

Figura
1-
Presença de gengivite grave com sangramento,
reabsorção
óssea alveolar, exposição
de furca grau III e osteomielite
em dentes pré-molares superiores
em animal da espécie canina,
raça Sheepdog, com 3 meses de idade.
|

Figura
2-
Reabsorção
óssea, osteomielite e exposição
radicular
em dentes incisivos e caninos inferiores,
devido à presença de
pêlos presos entre estes dentes em
animal da espécie canina,
raça Sheepdog, com 3 meses de idade.
|
Após
a constatação de infecção
oral, realizou-se, sob anestesia geral, um completo
tratamento periodontal, raspagem sub e supragengival
com ultrasson odontológico para a remoção
de sujidades ao redor dos dentes. Também
foi necessária a extração
dos dentes com exposição de furca
grau III, curetagem dos alvéolos dentários
e do osso alveolar contaminado, além da
extração dos dentes decíduos
que apresentavam mobilidade. Muito cuidado precisou
ser tomado durante as extrações
para não danificar o germe dentário
permanente que encontrava-se abaixo do dente decíduo.
Não houve necessidade em se realizar suturas.
Após a raspagem, realizou-se o polimento
dos demais dentes presentes com uma mistura de
pedra-pomes e flúor em gel.
Para
a anestesia geral, utilizou-se como pré-medicação
Acepromazina (0,1mg/Kg) e Meperidina (2mg/
Kg), indução com Propofol (5mg/
Kg) e manutenção da anestesia com
inalação de Isofluorano. A medicação
pós-cirúrgica constituiu-se de antiinflamatório
(Meloxican – Maxicam® - 1mg/Kg, uma
vez ao dia durante 3 dias) e antibiótico
(associação Espiramicina- Metronidazol
- Stomorgyl® - 75.000UI/12,5mg/Kg, uma vez
ao dia durante 7 dias) e anti-séptico (Clorexidina
0,12% - Periogard® - 4 vezes ao dia durante
7 dias). Por
contato telefônico no dia seguinte à
intervenção cirúrgica, o
prorietário
informou que o animal estava bem, com boa recuperação
anestésica, alimentando-se normalmente
e demais funções normais. Após
uma semana, o proprietário encontrava-se
satisfeito com o retorno das atividades normais
do paciente. Não notava mais a presença
de halitose, sangramento ou qualquer desconforto
durante a manipulação da boca. Recomendou-se
então, condicionamento para futura escovação
dos dentes permanentes, exame diário da
cavidade oral e acompanhamento profissional a
cada 6 meses. Para o controle e tratamento da
DAPP, o animal foi reencaminhado ao seu clínico
geral habitual.
DISCUSSÃO
Mesmo sendo a doença periodontal
de alta incidência em pequenos animais,
não é esperada que sua ocorrência
esteja presente em animais jovens, muito menos
em filhotes, ainda com dentição
decídua. Hale (2008)7, por exemplo, descreve
sobre as possibilidades de doenças que
acometem a cavidade oral em filhotes e não
menciona a doença periodontal como potencialmente
presente.
No caso relatado, verificou-se
que a doença periodontal não teve
como fator principal o acúmulo de placa
e cálculo conforme preconiza a literatura1,5,8
mas sim, um fator extrínsico associado
a um problema dermatológico. Com a persistência
dos ectoparasitas e os hábitos de mordiscar
a pele, os pêlos que ficaram presos entre
os dentes deste paciente tornaram-se um corpo
estranho, acumulando sobre eles restos de alimentos
que levaram à inflamação
gengival aguda. Este quadro poderia ter sido revertido
se algum tratamento fosse realizado a tempo mas,
com a progressão para a periodontite, lesões
como reabsorção do osso alveolar
e mobilidades dentárias culminaram na perda
de elementos dentários precocemente, de
acordo com os relatos de Page & Schroeder10
em 1982, Harvey & Emily (1993)8, Marreta (1992)9
e West-Hyde & Floyd (1997)11 quanto à
progressão da doença periodontal.
Outros fatores poderiam estar
associados com o desenvolvimento precoce e grave
da doença periodontal neste filhote como
imunossupresão, afecções
sistêmicas, tensão ou distúrbios
endócrinos, conforme relatou West-Hyde
& Floyd em 199711, mas exames laboratoriais
e informações obtidas pela anamnese
descartaram estas possibilidades. Fatores físicos
como apinhamentos dentários, má
oclusões ou outras anomalias, conforme
relatou Page & Schroeder em 1982, também
não eram presentes.
O tratamento realizado seguiu o protocolo
estabelecido por West-Hyde & Floyd (1997)11
e Gioso (2007)4 e obteve-se sucesso na eliminação
da dor e da infecção. Entretanto,
não foi possível a preservação
de alguns elementos dentais comprometidos pela
doença periodontal avançada. A exodontia
foi realizada de maneira cuidadosa, pois conforme
relatou Hale (2008)7, pode-se lesar o germe dentário
permanente.
Visando
a preservação de uma boa saúde
oral na dentição permanente, recomendou-se
ao proprietário iniciar o condicionamento
do animal para escovação dentária
já que, de acordo com Eisenmenger &
Zetner (1985)3 e Gorrel & Rawlings (1996)6,
os filhotes se acostumam mais facilmente ao procedimento.
Retornos periódicos a cada seis meses também
foi recomendado para a avaliação
da eficiência na manutenção
da higiene oral, além de acompanhar o desenvolvimento
da dentição permanente e do final
do crescimento. Nesta fase é importante
estar atento na identificação de
outras doenças que podem acometer a cavidade
oral dos filhotes como maloclusões, cistos
dentígeros, tumores orais, entre outros,
conforme alertado por Hale (2008)7.
AGRADECIMENTOS
“Este
animal foi atendido pela autora na Clínica
Veterinária Sweet Dog, na cidade de
Bauru-SP. Aproveitando a oportunidade, agradecemos
aos Médicos Veterinários Sílvio
Reginato (proprietário) e Simone Poli pelo
apoio e oportunidade de realização
deste atendimento”.
BIBLIOGRAFIA