Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Artigo científico

O MÉDICO E A CURA: Um caso de convulsões tratado com medicamento homeopático

Cláudia de Paula Ferreira da Costa
• Especialização em Homeopatia e Irisdiagnose (IBEHE)
• Diretora da Anclivepa-SP
• Proprietária da CIAVET Veterinária e Petshop
ciavet.claudia@gmail.com


Ao publicar Exposição da doutrina homeopática ou Organon da arte de curar, em 1810, Samuel Hahnemann abre ao mundo da medicina e, portanto da ciência, a oportunidade de visualizar a doença e
doente sob uma nova luz. Já no parágrafo 1, o autor declara: “A mais alta e única missão do médico é
restabelecer a saúde nos doentes, que é o que se chama curar
”. Assim, como no parágrafo 2 caracteriza
seu ideal de cura: “O mais alto ideal de cura consiste no restabelecimento da saúde de maneira rápida, suave e permanente ou na remoção e aniquilamento da doença em toda a sua extensão, pelo caminho mais curto, mais seguro e menos prejudicial, baseando-se em princípios de fácil compreensão” 2.

   Mas qual é o real significado da palavra “cura”? O alopata atual relaciona cura com o desaparecimento dos sinais patológicos de uma determinada enfermidade. Para os homeopatas, cura significa reequilíbrio da energia vital, pois no estado de saúde, esta força anima o corpo material (organismo) com poder ilimitado e mantém todas as suas partes em admirável atividade harmônica. Esta energia vital, uma vez em desequilíbrio, manifesta, através dos sintomas, sua desarmonia. O homeopata trata do “doente” e não da “doença”. Portanto, para o homeopata, “curar” significa devolver o equilíbrio ao doente. Segundo Kent a cura será suave somente se fluir no curso da direção natural, restabelecendo a ordem e desse modo, removendo a doença. Sendo a doença o desequilíbrio da energia vital, é natural esperar que o interior do paciente e não seus tecidos sejam primariamente desequilibrados. As manifestações exteriores são tardias. A cura deve sempre caminhar do centro para a periferia4.

    Para respaldar esta afirmação, Kent cita a importância das Leis de Cura de Hering (evolução de cura baseada no padrão comum que é a evolução clássica do sarampo). Os médicos de sua época estavam amplamente familiarizados com a evolução clínica da maioria das doenças infecciosas que assolavam as populações, tais como sarampo, varicela, difteria, etc. Estas moléstias eram bem conhecidas do ponto de vista clínico e serviam de padrão para o estudo das demais enfermidades. As verdadeiras doenças crônicas não desaparecem “instantaneamente”, devendo cumprir com toda uma reorganização do organismo adoecido e obeder uma seqüência lógica de reequilíbrio energético4.

    Segundo Hering, a cura verdadeira se dá:
1- de cima para baixo (da cabeça para as extremidades);
2- de dentro para fora (do centro para a periferia);
3- dos órgãos mais importantes para os menos importantes;
4- na ordem inversa de sua aparição (dos sintomas mais atuais para os mais antigos).

   Portanto, para que a cura se expresse, deve haver um movimento centrífugo, exonerativo e curativo, como se existisse um comando ou governo interno que colocasse as moléstias para correr de dentro de si, para só após, então, restabelecer a saúde. Kent menciona que ao constatar o início dos sintomas e a evolução da doença, tendo administrado o medicamento correto, o homeopata poderá observar o curso inverso da doença e apreciar a cura do doente. Caso contrário, pouco influiu sobre o doente4.


RELATO DE CASO

   Um cão macho, Lhasa apso, de 8 anos de idade apresentou um quadro de convulsão durante o procedimento de banho e tosa há 2 anos. Na ocasião, o ambiente encontrava-se muito quente, tendo o animal apresentado quadro de intermação com temperatura corpórea de 42°C. Após 4 meses novas crises convulsivas apareceram com intervalos de 3 a 4 meses. Atualmente as crises convulsivas se apresentam em intervalos de 3 a 4 dias. As convulsões tônico-clônicas se deram sob a forma de tremores, sialorréia, perda da consciência, movimento de pedal dos membros torácicos e pélvicos. O paciente nunca foi medicado com anticonvulsivantes convencionais. O proprietário relatou que o animal era bastante calmo e dócil, apenas rosnando em algumas situações quando contrariado, não aparentando medo em situações cotidianas. Inquirido sobre moléstias pregressas, o proprietário relatou que o animal desde jovem apresentou diversos quadros de piodermite superficial e otites eczematosas, sempre piores no verão, sendo sempre medicado segundo a medicina alopática. Apresentava episódios de masturbação freqüentes, ficando excitado na presença de crianças e objetos como almofadas, chegando a constranger o proprietário nestas ocasiões. Ao exame físico, apenas notou-se prurido e eritema bilateral de pálpebras inferiores e superiores.

Repertorização1
- Convulsão, calor febril
- Calor agrava
- Pele, prurido
- Gen. Masc., masturbação
- Olho, prurido

1ª prescrição   

   Após agitação, diluir 2 gotas de Causticum 30CH em meio copo de água, mexer bem e dar 3 ml, 1 vez ao dia ( método “plus”) em dias alternados.

   Após 3 semanas, o proprietário retornou com o animal, relatando que o mesmo estava sem convulsões
desde o início do uso da medicação, tendo observado apenas um episódio de masturbação desde então. Porém o prurido e o eritema nas pálpebras haviam aumentado muito e diversas pústulas e áreas eritematosas sobre todo o corpo haviam aparecido.

2ª prescrição

   Causticum 30CH (método “plus”) a cada 3 dias.

   Após 8 semanas, o proprietário relatou que o animal, após o espaçamento da medicação, havia apresentado novos episódios convulsivos, não se masturbava e o prurido do corpo e das pálpebras haviam diminuído.

3ª prescrição

    Causticum LM 3 (método “plus”) 1 vez ao dia.

   Após 4 semanas, o proprietário relatou que o animal não apresentou convulsões durante o período observado, bem como não se masturbou, porém o prurido da pele e das pálpebras estavam muito piores, bem como o eritema da pele.

4ª prescrição

   Continuar com Causticum LM 3 (método “plus”) 1 vez ao dia.

   Após 7 meses o animal retornou sob o relato de há 2 meses ter apresentado uma crise convulsiva muito leve, havia voltado a se masturbar, mas estava sem prurido.

5ª prescrição

   Causticum LM 4 (método “plus”) 1 vez ao dia.

   Atualmente o animal se encontra sob esta prescrição, sem convulsões, masturbação ou pruridos.

Conclusão

   Após proceder a hierarquização dos sintomas e a conseqüente repertorização, a escolha do medicamento Causticum se deu devido à completa cobertura dos sintomas escolhidos e, sobretudo à compatibilidade sintomática com as matérias médicas consultadas1,3,6,7.

   Considerando-se os resultados obtidos, conclui-se que o uso do medicamento homeopático no controle do quadro convulsivo foi eficaz, controlando as crises, diminuindo consideravelmente o intervalo entre as mesmas e melhorando significativamente a qualidade de vida do paciente.

    Em se tratando de doenças crônicas (neste caso os sintomas refletem um caso de Psora), estas têm as primeiras manifestações sobre a superfície, dirigindo-se para o interior do paciente. Na proporção em que são trazidas de volta para a superfície, sabe-se que o paciente está se recuperando2.

   Margareth Tyler afirma que as doenças crônicas, estando completamente curadas, terminam sempre em alguma erupção cutânea. Isto confirma o princípio de que toda doença crônica progride da superfície para o centro e desencadeando-se a cura, deve retornar à superfície. Pode-se observar claramente o retorno de sintomas antigos (prurido e eritema sobre todo o corpo e pálpebras) após o início da medicação. Com a adequação das doses e potências, o objetivo (controle das crises convulsivas, além do controle da ansiedade - demonstrada através da diminuição da masturbação) foi alcançado5.

   A única forma possível de cura com o medicamento homeopático correto é observar os antigos sintomas retornarem, ainda que o paciente e, no caso dos médicos veterinários, o proprietário não os deseje. Kent afirma que, durante o processo de cura, queixas referentes ao coração, pulmões e ao sistema nervoso devem ser seguidas por manifestações sobre a superfície: nas extremidades, sobre a pele, unhas e cabelo. Por isso na medida que os pacientes melhoram, estas partes adoecem; o cabelo cai ou surgem erupções sobre a pele. Pode ser que a cura completa seja impossível, pode ser impossível este estado desaparecer, porém esta é a direção que a doença deve percorrer e não há outro caminho4.

   Finalmente, segundo Hahnemann, em seu prefácio da 1ª edição do Organon da arte de curar: “Resta ver se os médicos, que pretendem agir honestamente para com a sua consciência e o seu semelhante, vão apegar-se à teia perniciosa de conjecturas e caprichos ou abrirão os olhos à verdade salutar” 2.

BIBLIOGRAFIA

1- EIZAYAGA, F.X. El Moderno Repertorio de Kent. Buenos Aires: Ediciones Marecel, 1991.

2- HAHNEMANN, S. Exposição da doutrina homeopática ou Organon da arte de curar. São Paulo: GEHSP Benoit Mure, 1995.

3- HERING, C. Condensed Materia Medica. New Delhi, B. Jain Publishers PVT. LTD., 2005.

4- KENT, J.T. Filosofia Homeopática. São Paulo: Robe Editorial, 1996.

5- TYLER, M.L. Curso de Homeopatia. Editorial Homeopática Brasileira, 1965.

6- TYLER, M.L. Retratos de Medicamentos Homeopáticos. São Paulo: Santos Livraria Editora, 1999.

7- VIJNOVSKY, B. Tratado de Materia Medica Homeopatica. Buenos Aires, 1978.

 
 
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