Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Crônicas


CALÇADA LIMPA

Por Dr. Flávio Prada
Professor livre-docente aposentado pela FMVZ-USP

Departamendo de Nutrição Animal e Produção Animal

Revista da ANCLIVEPA-SP- Nº 59 - 2008


Inauguramos uma nova sessão que tratará assuntos técnicos de uma maneira bastante agradável: a crônica. Com este primeiro texto, vamos dar uma breve passeada por alguns caminhos da nutrição de animais.
  
  Gosto de andar no parque. Tenho meus caminhos e atalhos preferidos para chegar na área verde. Determinadas calçadas são as minhas eleitas, pois os proprietários, com o passar dos anos, foram embelezando as mesmas, sendo que algumas apresentam ate motivos artísticos e decorados com flores.

Nos últimos dias tem chovido forte e a limpeza natural, pela água da chuva, fez com que a maioria das calçadas estivesse radiante de alegria.

Ao sair de casa e após caminhar algumas quadras, tive uma grande surpresa ao me deparar com uma das minhas preferidas. Sempre bonita e alegre, ela foi me alertando. Cuidado ao pisar no meu desenho de Tulipas, pois esta carregado de cocô de cachorro.

- Nossa - exclamei. É verdade. Observei que havia uma porção de massa fecal em decomposição e a chuva da noite não fora capaz de dissolver totalmente, provavelmente devido ao tamanho da obra.

Em seqüência ela foi indagando:

- Porque alguns cães obram tanto, com fezes volumosas e mal cheirosas, que empastam a calçada e o sapato de quem pisa?

E respondi, abreviando:

- Minha cara calçada, é devido ao tipo de ração que o animal consome. A ração tem boa palatabilidade, mas baixa digestibilidade e metabolização. Geralmente são rações baratas no curso aquisitivo.

- Digestibilidade, metabolização... Nossa, o que é isso? Indagou.

- Resumindo muito, é o seguinte: o animal come com vontade porque gosta, mas aproveita muito mal todo o material consumido.

- Alem disso, conclui: essas rações possuem quantidades reduzidas de energia metabolizável e então o animal necessita consumir muito para equilibrar a ingestão, e defecam muito por aproveitar pouco do alimento total.

- Mas - disse ela - os proprietários não sabem disso?

- A maioria não, respondi.

- O proprietário, então, está pagando caro, para alimentar o cachorro, embora a ração seja de baixo custo?

- Essa é muito boa - disse ela completando – o dono paga caro, o animal está mal servido nutricionalmente e sobram as fezes para mim.

- Exato, disse eu.

- Ora, o que podemos fazer para que os cães parem de me sujar dessa forma?

- Existem algumas maneiras.

- Uma dela é recolher com saco plástico as fezes, mas o proprietário não o faz por que as excreções de rações mal equilibradas nutricionalmente, são pastosas, mal cheirosas, volumosas, na maioria das vezes rações muito baratas, tornando-se necessário lavar o chão com bastante água e esfregar para limpar totalmente.

- É, não dá! Que outra forma o senhor sugere, se é que existe, sem ter que prender o animal ao seu lar, tendo tanto espaço bonito no parque para se andar?

- Eu completei: Utilizar rações de boa qualidade e observar que a quantidade fornecida ao animal deva ser bem menor que a que estava sendo administrada.

- Mas, e como ficam as fezes? Há modificação?

- Sim, respondi. Na quase totalidade das raças, quando o alimento dado é bom e o consumo é calculado, as fezes tornam-se reduzidas, mais escuras, com pouquíssimo odor e, o que é importante, se desprendem do solo com facilidade. Enfim, a economia é muito grande na manutenção do animal.

- Mas que ótimo - disse ela - assim as pessoas podem recolher com facilidade.

- O senhor não pode dizer isso para as pessoas?

Sorri, meio desanimado:

- Tenho feito isso há mais de quarenta anos. É a minha profissão.

- Então, continue orientando, disse ela.

- Olhe, viu como as flores ficaram bonitas, após as chuvas?

- Sim, gostei muito, disse eu.

E me afastei pensativo. Como orientar o pessoal do parque, se até as autoridades deste país não sabem o que ocorre na sala ao lado do seu gabinete? Talvez, se falasse diretamente com os cães, eles diriam aos seus donos, os alimentos que preferem.

- Não, os cães não. Eles já pensam como a gente, agem como a gente e comeriam somente guloseimas! Preciso pensar mais no assunto!
 
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