Gosto de andar no parque. Tenho meus caminhos
e atalhos preferidos para chegar na área
verde. Determinadas calçadas são
as minhas eleitas, pois os proprietários,
com o passar dos anos, foram embelezando as
mesmas, sendo que algumas apresentam ate motivos
artísticos e decorados com flores.
Nos últimos dias tem chovido forte e
a limpeza natural, pela água da chuva,
fez com que a maioria das calçadas estivesse
radiante de alegria.
Ao sair de casa e após caminhar algumas
quadras, tive uma grande surpresa ao me deparar
com uma das minhas preferidas. Sempre bonita
e alegre, ela foi me alertando. Cuidado ao pisar
no meu desenho de Tulipas, pois esta carregado
de cocô de cachorro.
- Nossa - exclamei. É verdade. Observei
que havia uma porção de massa
fecal em decomposição e a chuva
da noite não fora capaz de dissolver
totalmente, provavelmente devido ao tamanho
da obra.
Em seqüência ela foi indagando:
- Porque alguns cães obram tanto, com
fezes volumosas e mal cheirosas, que empastam
a calçada e o sapato de quem pisa?
E respondi, abreviando:
- Minha cara calçada, é devido
ao tipo de ração que o animal
consome. A ração tem boa palatabilidade,
mas baixa digestibilidade e metabolização.
Geralmente são rações baratas
no curso aquisitivo.
- Digestibilidade, metabolização...
Nossa, o que é isso? Indagou.
- Resumindo muito, é o seguinte: o animal
come com vontade porque gosta, mas aproveita
muito mal todo o material consumido.
- Alem disso, conclui: essas rações
possuem quantidades reduzidas de energia metabolizável
e então o animal necessita consumir muito
para equilibrar a ingestão, e defecam
muito por aproveitar pouco do alimento total.
- Mas - disse ela - os proprietários
não sabem disso?
- A maioria não, respondi.
- O proprietário, então, está
pagando caro, para alimentar o cachorro, embora
a ração seja de baixo custo?
- Essa é muito boa - disse ela completando
– o dono paga caro, o animal está
mal servido nutricionalmente e sobram as fezes
para mim.
- Exato, disse eu.
- Ora, o que podemos fazer para que os cães
parem de me sujar dessa forma?
- Existem algumas maneiras.
- Uma dela é recolher com saco plástico
as fezes, mas o proprietário não
o faz por que as excreções de
rações mal equilibradas nutricionalmente,
são pastosas, mal cheirosas, volumosas,
na maioria das vezes rações muito
baratas, tornando-se necessário lavar
o chão com bastante água e esfregar
para limpar totalmente.
- É, não dá! Que outra
forma o senhor sugere, se é que existe,
sem ter que prender o animal ao seu lar, tendo
tanto espaço bonito no parque para se
andar?
- Eu completei: Utilizar rações
de boa qualidade e observar que a quantidade
fornecida ao animal deva ser bem menor que a
que estava sendo administrada.
- Mas, e como ficam as fezes? Há modificação?
- Sim, respondi. Na quase totalidade das raças,
quando o alimento dado é bom e o consumo
é calculado, as fezes tornam-se reduzidas,
mais escuras, com pouquíssimo odor e,
o que é importante, se desprendem do
solo com facilidade. Enfim, a economia é
muito grande na manutenção do
animal.
- Mas que ótimo - disse ela - assim as
pessoas podem recolher com facilidade.
- O senhor não pode dizer isso para as
pessoas?
Sorri, meio desanimado:
- Tenho feito isso há mais de quarenta
anos. É a minha profissão.
- Então, continue orientando, disse ela.
- Olhe, viu como as flores ficaram bonitas,
após as chuvas?
- Sim, gostei muito, disse eu.
E me afastei pensativo. Como orientar o pessoal
do parque, se até as autoridades deste
país não sabem o que ocorre na
sala ao lado do seu gabinete? Talvez, se falasse
diretamente com os cães, eles diriam
aos seus donos, os alimentos que preferem.
- Não, os cães não. Eles
já pensam como a gente, agem como a gente
e comeriam somente guloseimas! Preciso pensar
mais no assunto!