Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Opinião


BRASIL E RÚSSIA: O QUE TEMOS EM COMUM?

Por Marco Antonio Gioso
Presidente da ANCLIVEPA-SP


Revista da ANCLIVEPA-SP- Nº 60 - 2008

Onde se encontra a medicina veterinária da Rússia depois da queda do comunismo? Em visita oficial ao país, o presidente da Anclivepa-SP faz um relato surpreendente a respeito dos reflexos do comunismo que ainda dificultam a vida dos médicos veterinários em um país que tenta se adequar às exigências do novo capitalismo. E o que mais choca é a semelhança com a nossa Medicina Veternária.

    Moscou, maio de 2008. 13h00.

   Em visita ao maior PetShop da cidade, constata-se: cobra-se mais por um saco de ração de boa qualidade - algo em torno de R$ 150,00 por 18 kg - do que por uma consulta veterinária. Sem novidades. Muita variedade de produtos, especialmente pela maior quantidade de países próximos (ou nem tanto), como os europeus e asiáticos.

   Moscou tem problemas muito semelhantes aos de São Paulo: congestionamentos intermináveis, corrupção na polícia e em outros setores, inflação semi-controlada, falta de empregos, desorganização do setor público e, para piorar, neve, muita neve por pelo menos 4 a 5 meses, todos os anos! Povo simpático, acolhedor e sofrido por mais de 80 anos de ditadura comunista. Alguns ainda têm saudades daqueles tempos da Perestroika de Gorbatchev. Os mais novos, todavia, ávidos por fazer novos negócios.

   Visito também a mais moderna Clínica Veterinária da cidade, num prédio de pelo menos 1 mil metros quadrados, de dois andares, que pertence ao governo socialista e hoje é arrendado pelo veterinário mais famoso da Rússia.

   Uma volta ao passado, há pelo menos 25 anos, se não mais! O centro cirúrgico, a sala mais equipada, tem um foco cirúrgico com, pelo menos, 30 anos de uso. Nada mais. Anestesia inalatória? Imaginem! É proibida para veterinários na Rússia! São, de fato, consideradas drogas. Como dar palestras sobre odontologia sem pregar a anestesia inalatória? Tarefa árdua.

   Consulta: R$ 10,00. Castração de gata: R$ 100,00. Vacinação: R$30,00. Cirurgia ortopédica: quando feita, raramente, perto de R$ 400,00 (e sempre com anestesia injetável). Propofol corre solto... veia baixo, ou acima.

   Equipamentos e instrumentos antigos, obsoletos. Foi triste saber que o veterinário mais famoso e reconhecido lucra menos de R$ 1.000,00 por mês. Qualquer proprietário chega a gastar no Petshop, facilmente, R$ 400,00, com coleira, casinha, ossos artificiais. No veterinário, gasta, quando muito, R$ 50,00 com consulta e vacinação.

   Eles não estão contentes. Alguns sabem que estão errados, mas não conseguem sair deste beco. Devido ao sistema comunista, dos baixos salários de então e da antiga provisão mínima, mas garantida pelo governo, torna-se difícil hoje agir como o capitalismo emergente demanda. Mudar oito décadas de uma atuação comunista e saber gerenciar uma clínica que demanda serviços médicos é tarefa que vai exigir habilidades novas, busca de aprendizado em gestão, em administração micro e de macro economia, psicologia voltada a negócios. O país passa por uma transformação enorme, pouco sentida por outras nações. No fundo, vejo os colegas russos como heróis por manterem acesa a chama da nossa profissão!

   Veterinários de empresas, com promotores em início de carreira, ganham acima de R$ 2.500,00, considerados bem acima da média. Felizmente alguns veterinários sabem que estão deixando a desejar e buscam inovar na busca por conhecimentos em business. Ainda são poucos, mas é uma luz no fim do túnel.

   Alguma semelhança com outro país mais familiar?
 
 
Marco A. Gioso
é presidente da Anclivepa-SP
 
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