Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Opinião


CARTA À FILHA...
...QUE, EM 2024, TERÁ 20 ANOS...

Por Daniel Ferro
Editor da Revista da ANCLIVEPA-SP

Boletim Informativo - Nº 60 - 2008

 Fim de ano traz sempre reflexões. Pensamos sobre o que fizemos e sobre o que poderíamos ter feito. Mas desta vez, nesta última edição de 2008, a sugestão é que pensemos no futuro. E nada melhor para isso que falar diretamente a alguém que pouco viveu ainda. Em uma breve carta a alguém que ainda começa a descobrir o mundo, as pessoas e sua própria vida, façamos nossa reflexão. Como podemos ser?
   Minha querida,

   Sentado agora, pensando em tantas e tantas coisas necessárias para escrever, só vejo preocupações. E você me passa à frente, correndo e pedindo que eu me lembre da canção que ilustra a história da Branca de Neve e os Sete Anões. Minhas preocupações, claro, mudam.

   Em 2024, você entrará na idade em que tudo é possível e onde sua maior angústia será a de ter que escolher entre tantas virtudes que a vida lhe estará oferecendo. Eu daqui, neste presente tão perto de se tornar passado, pouco tenho a fazer. Posso tentar suplantar minha impotência lembrando você de algumas coisas que, se forem úteis, você não se lembrará de quem falou; caso sejam superadas, peço que não deixe que te atrapalhem.

   Naquele ano, você descobrirá que existe sempre mais de um caminho para escolher. Às vezes, muitos deles. Siga sempre o conselho do nono. Escolha o caminho mais difícil. E não se preocupe, porque nesse
momento, você terá o maravilhoso privilégio de estar começando. Será o começo de sua longa vida e isso lhe dará o olhar mais jovem que se possa ter sobre todas as coisas. À força de sua paixão juvenil, o mundo ofertará sua reverente deiscência.

   Por mais difícil que possa parecer, não tenha medo de sua aparência e não se prenda a estereótipos. Se eu pudesse, provaria que você pode escrever e re-escrever seu destino sem usar qualquer modelo já existente. E não deixe que ninguém dite sua própria conduta. Seja livre. Talvez você já comece a perceber que pode moldar todo seu destino e que ninguém mais além de você terá poder sobre isso. Meu privilégio e minha maior responsabilidade são vê-lo – seu longo destino - tomando vulto desde agora, enquanto você me ouve (mal) cantar. Mas também verá que ao conquistar alguns poucos e bons amigos, dividir opiniões pode ser bastante produtivo.

   Verá que muitas vezes, todos parecem estar contra... Mantendo sua opinião, porém, conseguirá o que ninguém até então conseguiu imaginar. Incomoda perceber que as pessoas criticam apenas para dizer algo. Você, antes de dizer não, deverá pensar se conseguiria fazer melhor. Se concluir que não, é melhor calar. E não dê ouvidos a tantos que só sabem criar empecilhos porque só você será capaz de encontrar os atalhos.

   Desde já eu posso lhe dizer que a liberdade é a capacidade de resistir ao que tenta nos esmagar e de fugir àquilo que tenta nos definir, às convenções sociais, familiares, sexuais. Mas saiba que a liberdade é tão excitante quanto insuportável. Os semáforos só existem porque os homens criaram o caos e, portanto, precisam de guias. Os erros que por ventura você cometa (e acredite, você cometerá muitos!), assuma-os. A tentação de encontrar culpados será enorme. Resista e assuma. Mesmo nas piores situações, haverá sempre a chance de parar, refletir, mudar de opinião e tomar outro rumo. Não tenha receio. No futuro, você entenderá o porquê disso!

   Nessa tenra idade, você vai de deparar com os primeiros grandes sucessos e com suas primeiras grandes decepções. Preste mais atenção aos primeiros que aos últimos. Isso lhe dará fôlego para perceber que nada é definitivo e que você mesma tem o poder de reverter os revezes. Quanto mais você conseguir repetir esta atitude simples, tanto mais rápido você entenderá que sempre é possível começar novamente, que sempre há outra forma de fazer e que a vida permite inúmeras novas e inesperadas conquistas. A única atitude verdadeiramente inaceitável é a resignação e a passividade diante da sorte.

   Mas talvez seja no amor que você, aos 20 anos, encontre suas maiores alegrias e também as maiores dúvidas. Sinceramente, resisto à tentação de tentar privá-la de tudo quanto sei por que você deverá passar. Pudera eu fazê-la passar à margem dos dissabores dos relacionamentos – especialmente as primeiras experiências – para entregá-la de vez à tranqüilidade de uma vida de mais certezas. Levará tempo até que você aprenda que o amor que é doado é infinitamente mais importante e recompensador que o amor que é recebido. Até lá, você vai querer que alguém a ame tanto quanto você ama.

   O que quero dizer é que você tem e terá o direito de ser o que você quiser ser. Mas muito do que você desejar, dependerá exclusivamente de você. Viva, portanto, como se você fosse imortal, porque esse pensamento lhe roubará o medo de tentar sempre! E, enfim, rasgue esta carta: em vinte anos eu estarei, provavelmente, repetindo todas estas palavras. E com 20 anos, você não suportará ouví-las, claro! Você será fruto de suas escolhas e eu não poderei mudar isso.

   Por enquanto, permita apenas que eu e sua maman cresçamos junto com você, que eu continue sendo ‘príncipe’ enquanto nossa inocência permitir, que possamos vê-la sorrir do que falo de mais infantil, que durmamos quantas vezes pudermos, juntos numa tarde de domingo e que eu possa ainda cantar ‘Branca de Neve’ para vê-la dançar...
Por Daniel G. Ferro
Editor da Revista da Anclivepa-SP
 
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