Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Opinião


MEDO DE TECER

Por Daniel G. Ferro
Editor da Revista da ANCLIVEPA-SP

Boletim Informativo - Nº 61 - 2009

A folha branca de papel sempre foi objeto de pânico para muitas pessoas.
Por que os veterinários escrevem tão pouco? Descobrir qual o objetivo do texto
é o primeiro passo. Existem revistas para todos eles. E quem faz uma revista
boa são os autores que lá escrevem.
Texto é tecido

   De fato, escrever é entremear palavras que somem algum sentido para alguém ou para um grupo determinado de pessoas. Se um artigo completo a respeito da influência da gravidade das supernovas sobre o desvio da inclinação do eixo terrestre não faz sentido para muitas pessoas, não significa que não é texto, certo?

   O milagre está em alguém conseguir observar um conjunto de palavras escritas, compreendê-las e interpretá-las de tal maneira que aquilo lhe faça sentido e, mais ainda, torne-se interessante. O tecido de palavras, em algum momento, despertará o interesse de alguém.

   Então por que o medo de escrever?

   Como em quase tudo na vida, 'escrever bem' demanda paixão e dom de quem o faz. Será tanto assim? Não creio. Tecer uma folha de papel com um conjunto de palavras que prendem a atenção de alguém é acima de qualquer coisa, treino. Quanto mais se faz, mais automático fica.

   Sonia Belloto* afirma com propriedade que "não existem regras para escrever bons textos (...) porque as regras que nos ensinaram na escola só serviram para inibir nossa criatividade". José Saramago, prêmio Nobel de literatura, disse que todos somos escritores, só que alguns escrevem, outros não! Bons argumentos!


Texto técnico

   Por que não tentar deixar o receio do julgamento de lado e colocar no papel aquilo que se sabe, aquilo que se aprendeu? O texto técnico é para isso. Não só o texto estritamente científico, mas aquele baseado em um atendimento clínico ou em um conjunto de observações que se repetem na clínica. Pronto, já se tem material para um bom tecido.

   Daí surge o dilema: por onde começar? Uma das formas mais usuais é a 'avalanche'. Mesmo um artigo científico deve começar por aquilo que o autor acredita que é pertinente ao seu estudo. Em outras palavras, começar a escrever o que vem à mente, baseado no que já se sabe sobre o assunto. Não duvide, pois depois do primeiro parágrafo, a cortina desaba e o tear funciona com naturalidade. A partir daí, claro, busca-se base em outros textos para fundamentar algumas afirmações. Mas apenas para ratificar aquilo que já se sabe. Nada mais simples!

   Uma coisa é certa: os grandes textos da história não foram feitos pela força do Espírito Santo, nem foram escritos de uma só vez. Reler a 'avalanche' dá, de imediato, a visão geral da obra e oferece ao autor a tesoura para moldar o tecido bruto. Às vezes é necessário até que se espere outro dia para que a percepção se torne totalmente diferente.


Onde escrever?


   Depois de pronto, outro dilema: onde publicar. Não raro, colegas questionam o tipo de texto publicado nesta ou naquela revista. E a resposta é só uma: depende do objetivo do texto.

   Escritores de sucesso pesquisam o mercado antes de escrever e descobrem o que o público quer ler. Nós veterinários devemos decidir por quem queremos ser lidos. E mais: queremos somente exibir o tema ou queremos que nos descubram como profissionais?

   Cada revista abrange um desses objetivos. Se o desejo é que os clientes saibam que a clínica é conceituada, que publica em revistas, de que adiantaria escrever para a revista Nature? Quantas pessoas terão acesso?

   Revistas de perfil cientificamente mais abrangente e menos exigente permitem que outros colegas, que não têm interesse científico de publicações, coloquem sua experiência e seu conhecimento em público. E revistas com perfil de linguagem para leigos levam o médico veterinário diretamente para dentro da casa de seu cliente. Cada texto tem seu valor.

   O autor faz seu texto bom ou ruim. Ao ler algo ruim em uma revista, escreva você melhor, na próxima edição. Não fale mal da revista, torne-a melhor com seu próprio artigo! A Revista da Anclivepa São Paulo é para isso!

   E para você? Qual o valor deste texto? Se apenas uma pessoa que o ler apreciar, se para ela tiver feito alguma diferença, então este já é um texto bom. E eu já me sinto satisfeito.
Por Daniel G. Ferro
Editor da Revista da Anclivepa-SP

* Belloto, S. Você já pensou em escrever um livro? informações fundamentais para tornar-se um escritor de sucesso. 2006, Ed. Belloto, 4ª edição, 125p.

 
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