Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais

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Artigos


Toxoplasmose: mitos e verdades
Autor:
Marcelo de Souza Zanuto, MV, MMV
Universidade Federal da Bahia (UFBa)
Boletim Informativo - Ano VII - Nº29 - Jan/Mar 2003 - Pág.9

 

Toxoplasma gondii é um protozoário tecidual com distribuição no mundo todo. O organismo é um coccídeo tendo os felídeos como os únicos hospedeiros definitivos. Milhões de oocistos são eliminados ao ambiente nas fezes felinas (ciclo enteroepitelial), durante uma a três semanas, após a ingestão de oocistos esporulados ou cistos teciduais. Os oocistos esporulam após 1 a 5 dias, tornando-se infectantes para a maioria dos vertebrados, incluindo-se o cão e o homem. Os oocistos sobrevivem por meses a anos no ambiente. Ao término do período de eliminação de oocistos, desenvolve-se imunidade intestinal de duração variável. A grande maioria dos gatos infectados com o parasita experimentalmente falhou em eliminar oocistos quando desafiados com cistos. Há relatos de nova eliminação de oocistos após 6 anos da inoculação inicial.

Após a ingestão de oocistos esporulados ou cistos teciduais, o parasita penetra o epitélio intestinal e se dissemina, na forma de taquizoítos, pelo corpo através do sangue e da linfa. Tanto os gatos como os hospedeiros intermediários, incluindo-se o cão e o homem, desenvolvem cistos teciduais, contendo muitos bradizoítos, que persistem por anos após a infecção. Se as respostas imunes humoral e celular mediada estiverem normais, a disseminação tecidual do parasita não resulta em sintomas clínicos evidentes de doença. O cérebro, fígado, pulmão, musculatura esquelética e os olhos são os tecidos mais comuns de formação de cistos. Se um estado de imunodeficiência se desenvolve, os bradizoítos podem ser ativados resultando em nova disseminação e replicação do parasita podendo resultar em doença clínica.

Em gatos, a toxoplasmose fatal produz sintomas pulmonares, hepáticos, do sistema nervoso central, pancreáticos e oculares, sendo mais frequente em filhotes infectados via transplacentária. As infecções que resultam em doença mais branda, podendo não levar à morte e de difícil diagnóstico, produzem febre, hiperestesia muscular, uveíte anterior e posterior, retinocoroidite, convulsões, ataxia, sintomas vestibulares, pancreatite e hepatite. Na ausência de outros sintomas sistêmicos, as manifestações oculares e neurológicas estão mais relacionadas com reativação da infecção do que com infecção aguda.

Em cães os sintomas podem estar relacionados a lesões no sistema respiratório, gastrointestinal ou neuromuscular, ou a doença apresentar-se de forma generalizada, mais frequente em cães com menos de 1 ano, caracterizada por febre, dispnéia, vômito, diarréia e icterícia. A forma neurológica da doença, mais frequente em cães idosos, é caracterizada por convulsões, deficiência em nervos cranianos, ataxia, paresia ou paralisia de membros, com evolução de semanas. A forma severa da doença, representada por pneumonia e hepatite, pode levar ao óbito em uma semana. Há poucos relatos de envolvimento ocular associado com a toxoplasmose em cães.

A pesquisa de oocistos nas fezes felinas para a identificação de gatos na fase de eliminação do parasita pode ser realizada utilizando-se a técnica de flutuação em solução de sacarose. Não há evidência laboratorial diagnóstica de toxoplasmose ao hemograma, a urinálise ou à bioquímica sérica. Ao hemograma pode-se encontrar anemia não regenerativa, leucocitose por neutrofilia, neutropenia, linfocitose, monocitose e eosinofilia. Na dependência do órgão envolvido pode-se desenvolver hiperproteinemia (gamopatia policlonal), hiperbilirrubinemia, aumento de enzimas hepáticas e da creatinina quinase. A avaliação citológica de efusões pleurais ou abdominais, do lavado broncoalveolar ou transtraqueal e do líquor pode, eventualmente, evidenciar a presença de taquizoítos.

Não há teste sorológico disponível atualmente que indique quando ocorreu a eliminação de oocistos. Os resultados dos testes sorológicos podem ser interpretados da seguinte forma:

Gatos saudáveis

1. Resultados negativos sugerem que o gato não foi exposto ao agente, e que provavelmente, se o animal entrar em contato com ele eliminará oocistos. O proprietário deve tomar medidas preventivas que evitem que o gato adquira a infecção evitando o fornecimento de carne crua ou mau cozida, não permitindo ao gato que ele cace e adotando medidas de controle de ratos e hospedeiros paratênicos potenciais (baratas). Mulheres grávidas e pessoas imunodeprimidas não devem limpar a bandeja sanitária e as fezes devem ser removidas diariamente;

2. Resultados positivos (anticorpos IgG) sugerem que o gato foi infectado anteriormente e o período de eliminação de oocistos terminou. Em estudos experimentais, raramente o gato terá nova eliminação de oocistos se re-exposto ou imunodeprimido. A interpretação mais conservadora é considerar todos os gatos potencialmente eliminadores de oocistos, instituindo-se medidas preventivas em todos os domicílios, particularmente naqueles com indivíduos imunodeprimidos. Não há meio atualmente disponível de determinar se o proprietário com toxoplasmose adquiriu a doença de seu gato (ou de seu cão). Baseado em alguns estudos, parece improvável que as pessoas se infectem com T. gondii a partir do contato com seus gatos:
A. Falhou-se em isolar T. gondii do pelame de gatos até 7 dias após o período de eliminação de oocistos;
B. Veterinários e outras pessoas que lidam com gatos não possuem maior frequência de evidência sorológica de toxoplasmose do que outros profissionais;
C. Pacientes com AIDS proprietários de gatos não possuem maior frequência de evidência sorológica de toxoplasmose do que aqueles com AIDS e sem gatos;

A infecção no homem ocorre pela exposição a oocistos esporulados no ambiente ou contaminando alimentos, e pela ingestão de produtos cárneos crus ou mau cozidos. Luvas devem ser utilizadas em todo o momento que se for trabalhar com o solo. As mãos devem ser cuidadosamente lavadas após o manuseio de carnes cruas ou com o solo.

Gatos ou Cães com sintomas clínicos compatíveis de Toxoplasmose

A combinação de evidência sorológica de infecção ativa ou recente, sintomas clínicos compatíveis, exclusão de outras causas potenciais dos sintomas e a resposta terapêutica pode ser utilizada como tentativa de diagnóstico da doença. Baseando-se no conhecimento dos testes sorológicos disponíveis os seguintes resultados são mais consistentes com infecção recente ou ativa, mas não diagnósticos:

# Um aumento ou queda de quatro ou mais títulos de anticorpos IgG no perído de 2 a 3 semanas; um único título de anticorpos da classe IgG, mesmo que alto, não se traduz em infecção recente ou ativa;

# Títulos de anticorpos da classe IgM maiores que 1:256.

Os anticorpos da classe IgM são detectados frequentemente no soro de cães e gatos doentes como também em gatos infectados com o Vírus da Imunodeficiência Felina (VIF), mas não em animais saudáveis. Dessa forma, constituem-se no melhor marcador de doença clínica do que os anticorpos de outras classes (IgG e IgA). A detecção de anticorpos IgM nem sempre se correlaciona com infecção ativa ou recente pois em alguns gatos com infecção crônica estes anticorpos podem ser detectados eventualmente. Alguns gatos naturalmente infectados permanecerão IgM positivos e IgG negativos por semanas a meses. Isto ocorre provavelmente em decorrência de um retardo na mudança de classe de imunoglobulina M para G, sendo mais comum em gatos infectados com o VIF. Os gatos com suspeita de toxoplasmose podem ser tratados com clindamicina na dose de 10-12mg/Kg, a cada doze horas, via oral ou IM, ou com sulfa-trimetoprin na dose de 15 mg/Kg via oral, a cada doze horas, por 4 semanas. Cães podem ser tratados com clindamicina (10-20 mg/Kg a cada 12 horas, via oral ou IM) por 2 semanas.

 
Site atualizado por MV Jonathan Ferreira